120100106100356É difícil saber a atuação principal de Fernanda Canaud. Seja como musicista virtuosa que leva um repertório brasileiro para piano erudito a diversos palcos do Brasil e do mundo; seja como professora dedicada à docência há mais de 30 anos, com graduação pela UFRJ e mestra com especialização na obra de Radamés Gnatalli, a pianista professora da Escola de Música Villa-Lobos é conhecida por sua personalidade forte refletida no talento depositado por onde atua.

A agenda de apresentações e as aulas de piano em quatro dias da semana exigem de Fernanda um jogo de cintura próprio. No mês desta entrevista, a programação constava recitais na Igreja da Candelária e na Casa do Choro. “É uma maneira do aluno saber que a música é feita para ser mostrada também, não apenas para ser estudada”, explica a professora, que costuma sempre repor as aulas antecipadamente quando a agenda exige. “Muitas vezes o professor tem uma atividade docente, são excelentes professores, mas não se apresentam, quase nunca”, diz ela. A turma de alunos de piano de Fernanda Canaud é presença certa nas Audições de fim de período, pedagogia aplicada para desmitificar o medo do palco e despertar neles a auto-confiança.

“O músico não é um ator, ele não está fazendo o papel de um músico, ele está com seu coração, tocando com sua alma, o músico se desnuda.”

Antes mesmo do alfabeto, Fernanda Chaves Canaud já sabia ler algumas notas na partitura. Os pais, músicos amadores, colocaram a filha para estudar piano, e a menina jamais o largou. Aos sete anos, na primeira audição, tirou o primeiro lugar de um concurso apresentado no Conservatório Brasileiro. A música havia se anunciado cedo como destino. Tornou-se mãe jovem, e para que o filho pudesse ganhar bolsas nas escolas onde estudava, ela dava aulas de iniciação musical, aproveitando-se de sua formação técnica. O esforço foi recompensado, e o filho, Caio Márcio, tornou-se um dos violonistas de destaque no atual cenário musical brasileiro.

Ao longo da graduação como bacharel em música pela UFRJ, Fernanda Canaud acumulava cursos diversos, como preparação de professores e iniciação musical para primeiro grau, sem ainda imaginar muito bem o diferencial que levaria à música brasileira. Destacava-se nos recitais, foram oito prêmios em concursos nacionais de piano, além de bolsa para estudar no Conservatório de Moscou, em 1988. Mas foi no mestrado, também pela UFRJ, que delineou o que traria seu reconhecimento musical junto com muitos convites para participar de um seleto time de concertistas brasileiros. Em 1991, tornou-se mestre especializada em Radamés Gnatalli, transcrevendo seu repertório para piano, o que fez com que as obras do compositor gaúcho fossem incluídas na grade curricular do curso de bacharelado da escola de música junto com outros grandes nomes, como Alberto Nepomuceno, Lorenzo Fernandes e Heitor Villa-Lobos.

“[Radamés Gnatalli] era muito querido, e sofria um certo estigma de trabalhar com música popular de uma forma intensa. Basicamente o que ele fez em, termos de arranjos e de contribuição pra música popular, foi colocar cordas nos arranjos de samba, foi colocar elementos da música jazzística. Ele não foi um compositor que trabalhou a técnica dodecafônica, nem serialista, não passou por esse lado da música, mas ele inovou com a combinação instrumental e conclusão de instrumentos populares na música de concerto. então ele era um compositor que vai colocar o regional do choro numa orquestra, vai fazer uma cantata profana, cantos de umbanda”, explica a professora.

A conclusão da pós-graduação dedicada a Radamés Gnatalli levou Fernanda Canaud a ser reconhecida da noite para o dia, abrindo portas para mostrar sua habilidade no piano. O caminho percorrido foi desenvolver uma discografia respeitável e com o apoio de grandes nomes da música. Em 1993, lançou o álbum “Radamés Gnatalli”, que foi indicado ao Prêmio Sharp de Música. Três anos depois, o álbum “Fernanda Chaves Canaud”, também dedicado a Radamés, ganhou elogios de ninguém menos que Antônio Carlos Jobim, que disse: “Fernanda Chaves Canaud é uma pianista maravilhosa, e Radamés é o nosso mestre querido e inesquecível. A união dos dois faz este disco mais importante ainda para a música brasileira popular e erudita. Muito bom. Bravo!”. No mesmo ano, com o então professor da Escola de Música Villa-Lobos, José Botelho, que foi quem a convidou para dar aulas na escola, lançou mais um álbum, “Música brasileira para clarineta e piano”.

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Em 2003, em parceria com o violoncelista britânico David Chew, aproveitou o centenário de Radamés Gnatalli para gravar sua obra completa pelo selo da Rádio MEC, algo emblemático para Fernanda, que se tornou uma das maiores intérpretes do compositor gaúcho. “Um intérprete contribui muito com a obra do compositor. (…) A música é muito ampla, você encontra vários campos de trabalho, tem que encontrar sua verdade ali”, avalia.

Fernanda Canaud, porém, é uma musicista eclética. A vasta carreira de concertista lhe proporcionou parcerias de diversas vertentes, como Raphael Rabello, Joel Nascimento, Henrique Cazes, Turíbio Santos, Paulo Sérgio Santos, Olivia Byington e Edgard Duvivier. Ela explica que gêneros como o jazz ou a música contemporânea criaram mercados específicos em que atuam músicos especializados nestes repertórios, mas ela não descarta convites. “Se tiver um compositor que me convide a tocar numa mostra, eu vou estudar aquela peça, vou defendê-la”, afirma.

E defender os valores brasileiros é o que Fernanda Canaud faz quando se apresenta no exterior. A experiência como solista e camerista de eventos tradicionais no Brasil, como a Bienal de Música Contemporânea Brasileira e o Festival Villa-Lobos levou a professora a se apresentar diversas vezes fora do Brasil. Foi solista no Festival de Música da Umbria, na Itália e fez recitais na França, Inglaterra, Holanda, Espanha, Suiça e Colômbia. Convidada pela Embaixada Brasileira em Londres, Fernanda participou de um concerto na tradicional Igreja St. Martin-in-the-Fields. De apresentação em apresentação, a rede de contatos cresce, assim como sua importância no cenário instrumental.

“A gente vai assim, toca aqui, toca ali, toca com orquestra. Eu gosto muito de me apresentar. (…) Eu não sou uma pessoa das mais simpáticas, não tenho uma coisa muito política, sou muito verdadeira. Estes contatos vêm naturalmente, porque você está tocando, uns te chamam, eu acho que essas coisas não dá pra explicar. Mas principalmente o que me inflama é a vontade de estar tocando para as pessoas, eu gosto de tocar. Sempre gostei de estar não só ensinando música, mas fazendo música.”

Texto e entrevista: Pedro Soares
Fonte de consulta: Dicionário Cravo Albin