Nerisa Aldrighi, quinta da esquerda para a direita, em pé, comanda a Orquestra de Violoncelos
Nerisa Aldrighi, quinta da esquerda para a direita, em pé, comanda a Orquestra de Violoncelos

A violoncelista e maestrina, professora Nerisa Aldrighi, é uma daquelas pessoas com a tarefa de construir uma ponte entre dois mundos aparentemente distintos: o popular e o erudito. As ferramentas, seja o violoncelo ou a batuta, ela leva consigo para aulas em que, cada vez mais, percebe crescer o número de estudantes apaixonados pelo instrumento. Regente da orquestra de violoncelos da Escola de Música Villa-Lobos, grupo que conta com 14 alunas e 4 alunos, a carioca Nerisa tem em sua trajetória a passagem por projetos culturais e a criação da Orquesta Sinfônica Pro-Música de Juiz de Fora. Niteroiense de coração, ela é também diretora do Conservatório de Música de Niterói e desenvolveu projetos de musicalização na antiga capital fluminense, como o Projeto Aprendiz.

Nascida em Botafogo, cresceu na Tijuca, num período em que se reforçava a tradição do bairro como celeiro de artistas, mas foi dentro de casa que o impulso pela música a fez escolher ser profissional antes mesmo de ingressar na fase adulta. Os pais, Itérbio e Ieda Aldrighi, lidavam diretamente com arte e semearam o caminho para que a filha pudesse escolher livremente seu futuro.

“Eu fui sempre bem orientada, minha mãe tinha essa preocupação de colocar pra estudar mas sempre com a orientação de caso seguir a carreira tivesse toda estrutura, não era só entretenimento”

Os intervalos vespertinos da escola montessoriana em que estava matriculada eram dedicados a cochilos intercedidos pelas melodias de Tia Ana, uma  pianista arte-educadora que costumava ensaiar valsas e noturnos de Chopin, e encantava a ainda pequena Nerisa. A mãe Ieda, uma atriz que desde os 13 anos atuava em radionovelas da Rádio MEC, pagou aulas particulares para a filha com esta educadora, que também era professora do Conservatório Brasileiro de Música e morava próximo da família. Iniciaram-se as lições fundamentais da música, com o piano como instrumento pedagógico. Depois de Tia Ana, foram diversos professores, dentre os quais Luiz Henrique Senise. Aos 14 anos, outra professora de piano a sugeriu, aproveitando-se do fato da menina ter uma alta estatura, que trocasse o instrumento para violoncelo. A sugestão foi certeira, e o piano foi ficando de lado.

Completos 17 anos, Nerisa não dá bola para a dúvida de seguir os passos profissionais do pai Itérbio na Medicina, ficando mesmo com seu maior hobbie: o pai, além de médico, é um escritor apaixonado por música que dirige e apresenta o programa da Rádio Roquette Pinto, aos domingos pela manhã, chamado “Almanaque”. O desejo em ser musicista profissional desabrocha cedo, e Nerisa ingressa no Bacharelado para Violoncelo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A academia seria mais um impulso na menina prodígio, que foi além do próprio instrumento até a chegar à regência. A prática nas aulas eram semanais, momentos em que tinha lições com professores como Eugen Ranevsky, violoncelista polonês e pai do professor de flauta da Escola de Música Villa-Lobos, Eugênio Ranevsky. Porém, achava a maioria das lições dadas na universidade prosas teóricas, e Nerisa queria prática. Mudou para o curso de Regência, onde se tornou assistente da orquestra de Roberto Duarte e percebeu as diversas possibilidades musicais enquanto maestrina. O maestro niteroiense a convidou para também assisti-lo na Orquestra de Câmara de Niterói, e tudo coincide perfeitamente com sua mudança para o bairro de São Francisco, na casa que o avô comprou na década de 1920, e que é mantido pela família até os dias de hoje.

Aos poucos, a aluna foi substituindo o mestre. A carreira internacional de Roberto Duarte o obrigava a deixar orquestra e coro, composto por alunos da UFRJ, sob controle da orietanda, que ainda era também uma aluna. Passou a ser convidada para festivais, como maestrina e já professora, quando o mestro Nelson Nilo Hack (outro pai de um professor da EMVL, André Hack, que dá aulas de violino e viola) a convocou para compor o primeiro time de músicos na criação da Orquestra Pró-Música de Juiz de Fora. Assim como ocorreu com Roberto Duarte, Nerisa acabou por substituir o saudoso gaúcho Nelson Nilo Hack, músico que iniciou há 40 anos um movimento cultural na cidade mineira com instrumentistas de várias outras cidades do Rio e de Minas e se aposentou aos 92 anos. Faleceu em 2013. A regência e orientação da orquestra, hoje, fica com a pupila Nerisa.

Há uns 20 anos, a professora Cristina Nascimento, grande pianista (formada por Linda Bustani, uma das mais reconhecidas artistas por sua técnica arrojada e intensa atuação como concertista e mestra de muitos pianistas da  EMVL, como Fernanda Canaud, Cristina Nascimento, Nely Andrade e Glauco Batista) era diretora interina da escola, e procurava alguém para dar aulas de Harmonia. O convite chegou até Nerisa por intermédio do professor de canto da escola, Marcos Teixeira. Depois de aceita a proposta, não demorou para ela se tornar coordenadora de instrumentos, após o falecimento da pianista e professora Laís Figueiró, que ocupava a função. Hoje Nerisa está a frente da Cello Ensemble, a orquestra de violoncelos que reúne 18 alunos da Escola de Música Villa-Lobos, a grande maioria mulheres.

Instrumento tradicional em orquestras, pertencente à família dos violinos, e que possui grande extensão tonal, o violoncelo é tão versátil a ponto de se tornar o predileto de muitos compositores, como Heitor Villa-Lobos. Possui obras dedicadas à apresentação solo compostas por nomes eternos como Ludwig van Beethoven, Antonio Vivaldi, Johan Sebastian Bach, além do próprio Villa-Lobos. Vem, contudo, se modernizando recentemente com sua atuação também em gêneros mais populares:

– O violoncelo teve um crescimento enorme nessa virada do século, formaram-se grupos como Apocalyptica, e é um instrumento muito procurado, muito aproveitado, porque como é muito melódico, muita gente está aproveitando na música popular, o Caetano, o Jaques Morelenbaum, que é um arranjador e foi violoncelista do Theatro Municipal, muito amigo do Caymmi, do Jobim e foi trazendo o violoncelo para a música popular. Hoje não pode faltar um violoncelo num show. Tem até no “The Voice” – e ela ainda alerta que, se o violoncelo sobra, o instrumento do quarteto que cordas que falta é a viola – Uma época dávamos meia bolsa para instrumentos pouco procurados. Falta uma campanha.

A boa observação e experiência da maestrina, enquanto regente de duas orquestras e professora de dezenas de alunos, percebe também que pode haver uma mudança qualitativa no gosto popular a partir da musicalização desde a infância, bastando dar oportunidade, ir nas escolas para criar plateias e abrir mais salas de concerto. Para ela, os fundamentos da música deveriam estar no ensino fundamental, como a Matemática e as Ciências. Escolas como a Villa-Lobos, num cenário ideal, deveria ter o papel de capacitar e profissionalizar aqueles já com vocação para a prática musical:

– A gente faz tudo, desde a formação inicial, que poderia ser dada lá na escola, e nós poderíamos estar lá como orientadores dessa linguagem musical. Hoje, no final, você tem adultos procurando uma escola boa porque nao tiveram a formação musical no início da vida deles. E em todas as artes tem isso.

Nos projetos sociais, como o Aprendiz, a professora explica que basta um pequeno choque cultural para reverter a lógica do rótulo de que em comunidades só existem instrumentos relacionados ao samba, pandeiro, cavaquinho, o que limitaria o universo musical: “é musica, é instrumento, é exatamente a mesma coisa”, diz.

Nerisa aponta a transformação e importância da educação musical com alunos que se deslocam dezenas de quilômetros para estudar tanto no Conservatório de Música de Niterói quanto na Escola de Música Villa-Lobos, evidenciando a carência deste aprendizado em municípios do interior, e que cada vez mais nota o aumento da quantidade de pessoas estudando música de concerto, não apenas violoncelo.

– Música erutida é linda, é boa de ouvir, quem não gosta de ouvir a 5ª Sinfonia de Beethoven? Até abriu o Rock ‘in Rio, não foi? Porque é muito pop, que é uma música um pouco mais intelectual, com um texto mais complexo. (…) A popularização é trazer mais pra rua. Está até na moda aqueles flashmobs em que os músicos tocam Bolero de Ravel dentro de um metrô, ou uma Habanera de Bizet. Todo mundo vai gostar.

Entrevista a Pedro Soares