omarComo uma linha grave de contrabaixo, o professor Omar Cavalheiro demonstra discrição e esmero na dedicação aos alunos, seja no instrumento elétrico ou no acústico, com dedilhado ou arco, no blues ou no repertório de orquestra. Sua introspecção pode deixar despercebida toda uma carreira admirável de quem já trabalhou com nomes de peso como: Elza Soares, Leila Pinheiro, Wagner Tiso, Francis Hime, MPB-4 e Zé Renato, além de ter integrado orquestras sinfônicas e populares, participado como instrumentista de teatro musical, como a “Ópera do Malandro”, e gravado mais de 60 discos. Hoje, Omar integra o Novo Quinteto, que recria o saudoso Quinteto Radamés Gnattali, além de participar do Villa Quinteto, formado somente com professores da Escola de Música Villa-Lobos.

É bastante comum contrabaixistas não terem o contrabaixo como seu instrumento inicial, e com Omar não foi diferente. A família não possuía instrumento algum, e graças à tutela pedagógica das professoras Dalva Butikofer e Darcy Baracat, formadas na Escola de Música da UFRJ, tomou lições de piano dos seis aos oito anos. Com a mudança da família da Zona Oeste para a Zona Sul carioca, as lições ficaram escassas, e a reaproximação com a música só ocorreu aos 12 anos, quando os vizinhos da mesma idade apareceram com seus violões, o que atraiu bastante o interesse do jovem Omar. Logo, a sua tia Dulce o presenteou com um violão, onde pôde exercitar a percepção tirando rock and roll “de ouvido”.

Aos sábados, não perdia o programa de rádio Cavern Club, apresentado pelo lendário Big Boy no início dos anos 70. Na programação, apenas canções dos “Beatles”. Formou então grupos de rock e se inscreveu em diversos festivais estudantis com suas composições onde tocava guitarra e violão elétrico, além de cantar.

Nestas andanças juvenis no início dos anos 1970, em um festival na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, conheceu um jovem guitarrista que se encontrava ao seu lado. Começaram a trocar seus gostos musicais. Dois anos depois, se reencontraram para formar um grupo batizado de “Fruto”, onde Omar passou a tocar o baixo elétrico, completando a formação ideal para a banda.

— Este guitarrista veio a ser tornar muito conhecido: é o Victor Biglione, um dos maiores nomes  da guitarra. À época produzíamos nossos próprios shows em colégios estaduais, como o André Maurois. Era uma fase semi-profissional, mas com uma qualidade técnica/artística muito boa – relembra.

A qualidade do som da banda “O Fruto”, que emplacava covers e músicas autorais com influências que vão de Jimi Hendrix a Mutantes, passou a chamar a atenção do público. Omar já se tornara fã das linhas suingadas do Paul McCartney, teve poucas aulas formais das quatro cordas graves e, conforme ia se aprimorando, conhecia nomes do instrumento no Brasil, sobretudo o renomado Luizão Maia, que nesta época participava de turnês mundiais com Elis Regina:

— Luizão foi quem mais gravou baixo elétrico no Rio de Janeiro. Nos estúdios esperavam por ele. Ia de um [estúdio] para o outro, onde a seção só começava quando ele chegava – enaltece.

Passou a admirar também ícones do contrabaixo acústico como Ron Carter e Ray Brown, e o envolvimento com o contrabaixo começou a ficar mais sério. Por indicação do amigo Gaetano Galiffi, procurou a professora Carolina Alfaro Diz para aulas de teoria musical e solfejo. Mais tarde descobriu que a mesma havia ensinado uma lista de grandes profissionais, dentre os quais os irmãos Michel e Bernardo Bessler, além de Sandrino Santoro, que viria a ser o seu professor na Universidade.

Antes, porém, para acalmar os ânimos familiares, deveria entrar numa graduação “séria”, e Omar traçou um atalho dentro da Universidade: ingressou no curso de Geografia na Universidade Federal Fluminense, e logo conseguiu uma transferência para o Curso de Regência na UFRJ.

— Eu era ainda semi-profissional e tocava numa casa noturna que não existe mais, que ficava no Humaitá [bairro da Zona Sul carioca], quando conheci o baterista Fernando Careca [Fernando Alves], tio do Luiz Alves, contrabaixista acústico e também uma excelente referencia. Fernando gostou do meu som e me levou para tocar com a Elza Soares – explica.

Durante um bom tempo, integrou a banda desta que já pertencia ao panteão da Música Popular Brasileira. Participou de turnês, como a de Buenos Aires , onde apresentavam o melhor da música brasileira.

De volta ao Brasil, foi convidado para substituir o contrabaixista da montagem original da Ópera do Malandro, em cartaz no antigo Teatro Ginástico, com elenco que contava com Otávio Augusto, Marieta Severo e Elba Ramalho. O teatro musical entrou para o seu currículo, o que lhe rendeu uma convocação para ingressar na companhia de Charles Möeller e Cláudio Botelho. Procurava sempre conciliar os shows com as aulas na ProArte, em Laranjeiras, onde teve como aluno, dentre outros, Dé Palmeira, que viria a ser o baixista da primeira formação do Barão Vermelho.

Convidado por Adriano Giffoni, entrou na Orquestra de Música Brasileira, dirigida por Roberto Gnattali, sobrinho do maestro Radamés. Junto com Omar, participaram músicos dentre os quais: Marcos Suzano, Mário Séve, Andréa Ernest Dias, Oscar Bolão e Roberto Victorio.

— Modéstia à parte, o time era forte! – exclama, com sua costumaz humildade.

A orquestra lançou um disco pela gravadora Eldorado, de São Paulo, e compôs a programação da edição de 1988 do lendário Free Jazz Festival. Alguns desses músicos integraram em seguida a Orquestra de Cordas Brasileiras, que levava para a música de câmara os instrumentos brasileiros: violão, cavaquinho, bandolim e viola caipira, além do contrabaixo acústico e percussão. O projeto resultou na conquista do Prêmio Sharp em dois anos consecutivos, 1991 e 1992, como melhor grupo e melhor disco instrumental. O grupo faria depois uma série de apresentações com o pianista Wagner Tiso no Centro Cultural Banco do Brasil, das quais surgiu inclusive um box de CDs, denominado Instrumental no CCBB – Wagner Tiso e Orquestra de Cordas Brasileiras.

Capitaneada por Henrique Cazes, outro grupo do qual Omar integrou foi a Camerata Brasil, criado para um projeto da gravadora inglesa EMI Classics, e do qual resultou o álbum Bach in Brazil, com turnês europeias na Inglaterra e Portugal.

O currículo preenchido com grandes nomes da música não pararia por aí: participou do lançamento do disco Na Ponta da Língua, de Leila Pinheiro; trabalhou com o cantor Zé Renato, ex-Boca Livre; tocou com Francis Hime  no show Pau Brasil, além de gravar o Álbum Musical, com arranjos de Marco Pereira e Cristóvão Bastos.

As escalações que surgiam para gravação, porém, não o fizeram considerar-se um músico de estúdio:

 

— Os baixistas mais arregimentados para gravações eram Luizão Maia, Jamil Joanes e Alexandre Malheiros, do grupo Azymuth, além de Nico Assumpção e  Arthur Maia. Eu não era músico de estúdio, mas toquei numa quantidade de fonogramas considerável – diz, referindo-se aos mais de 60 álbuns que gravou .

Atualmente , Omar integra o Novo Quinteto, uma recriação do Quinteto Radamés Gnatalli, que tinha o próprio compositor gaúcho ao piano, Chiquinho do Acordeon, Pedro Vidal Ramos no contrabaixo, Zé Menezes na guitarra e o baterista Luciano Perrone. Todo o material de partituras do grupo foi entregue a Henrique Cazes por Chiquinho ,pouco antes de falecer. Cazes então convidou Omar para o contrabaixo, Oscar Bolão para a bateria, Maria Teresa Madeira para o piano, Marcos Nimrichter para o acordeom. O Novo Quinteto gravou o álbum Radamés Gnatalli 100 Anos, pela Robdigital e Radamés e o sax, do saxofonista Léo Gandelman, que conquistou o prêmio TIM.

Da atuação com a Orquestra de Cordas Brasileiras no álbum Bem te vi, do Conjunto Galo Preto, surgiu o convite do então diretor da Escola de Música Villa-Lobos, José Maria Braga, e Omar trouxe à escola a experiência anterior das aulas na ProArte, no Centro Musical Antonio Adolfo e na Musiarte:

— Sempre me mantive com a música e desse modo a minha trajetória foi traçada; os trabalhos foram me levando para as situações.  Assim foi o teatro musical, a área acadêmica, os grupos de choro  e tudo mais.

Recentemente, o seu projeto de mestrado profissional intitulado “Caderno Brasileiro para Contrabaixo” foi aprovado na pós-graduação da UFRJ com a nota máxima. O projeto trata da produção de um material didático direcionado a professores, estudantes e instrumentistas, contendo transcrições, exercícios e gravações feitas em duos de contrabaixo com violão, piano e acordeom:

— Estou bastante animado com o Promus 2016. É a primeira turma de mestrado profissional da UFRJ, cujas inscrições foram divulgadas na EMVL, pelo professor  Mauro Carvalho, presidente da Amavilla.

Aos que desejam se habilitar como contrabaixistas, o professor oferece estímulo. Ele vê algumas possibilidades no mercado de trabalho e cita nomes como Stanley Clarke, Jaco Pastorius, Marcus Miller, Arthur Maia, Ron Carter e Victor Wooten, só para citar alguns dos nomes que tiraram o contrabaixo da função de mero acompanhador e o colocaram na frente do palco , atraindo a atenção de muitos jovens.

— Eu procuro falar sobre a importância de uma boa leitura no instrumento, ser eficiente nesse aspecto, pode resultar na economia de estúdio em horas de gravação e um número menor de ensaios. A partitura você resolve. Naturalmente que ensinamos a construção de linhas de baixo através das cifras, pois nem sempre o músico vai encontrar a partitura pronta.

Omar lembra o incentivo que igrejas evangélicas dão a jovens instrumentistas, muitos dos quais são alunos da nossa escola. Além disso, destaca o fato de alunos com o perfil  e interesse na graduação, visando também o ingresso nas orquestras sinfônicas.

— Aqui [na Escola de Música Villa-Lobos] o aluno vai ter o solfejo, o treinamento rítmico ,conhecer o repertório , as escolas do instrumento, bem como participar dos grupos e orquestras . A Escola de Música Villa-Lobos oferece sem dúvida aos seus alunos uma boa formação.

 

Entrevista a Pedro Soares
Fonte de consulta: Dicionário Cravo Albin