DSC02032Se a vida da professora Nely Alencar fosse uma obra cinematográfica, poderíamos imaginar a seguinte sinopse: a paixão de uma menina sensível pela 7ª Arte é interrompida pela predestinação ao piano.

Natural de Bauru, no interior de São Paulo, Nely cresceu num tempo em que cinemas de rua correspondiam a locais de confraternização popular, centros de encontros comunitários, com ingressos a preços de passagens de ônibus e capazes de atrair gente de todas as classes sociais. Películas como “Teorema”, de Pasolini, “O discreto charme da burguesia”, de Buñuel, ou “8 e 1/2”, de Felini, estavam na programação das salas. O início de uma revolução cultural chegava a uma legião de novos leitores. Publicações de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre faziam a cabeça da menina Nely uma torrente de novas ideias realizáveis nos diversos campos das artes.

— Era uma outra geração, que era voltada muito para este campo artístico mesmo. E eu sempre admirei o cinema. Ele é composto de todas as artes, das artes visuais, da arte da interpretação do texto, onde tem a música também. Sempre achei muito completo – diz ela, em suspiros.

A professora, porém, apesar da tentação em tornar-se cineasta, aprofundando-se em vastas áreas artísticas, seguiu a profecia que foi ratificada pela mãe Carmelita ainda na gestação, quando afirmou, sem sombra de dúvidas, que a filha iria ser pianista, reforçando a crença espiritual de que cada um possui uma missão divina.

— Ela [a mãe Carmelita], ainda grávida, dizia ‘minha filha vai ser pianista’. Já tinha essa situação espiritual – explica com a serenidade característica.

Assim que concluiu o antigo 2º grau, correspondente ao atual Ensino Médio, Nely até teimou em mudar seu destino. Estava certa em se inscrever no vestibular para Cinema, na Universidade de São Paulo, mas, implacável, este mesmo destino a fez tomar outra decisão, optar por uma bolsa de estudos nos Estados Unidos oferecida por um curso de línguas, o que a fez perder o prazo de inscrição do vestibular.

Neste momento da juventude, contudo, Nely já acumulava bagagem como musicista. Estudara desde menina no conservatório de música de Bauru, como previa a mãe. Tinha aulas com uma exigente professora de iniciação musical de nome Belina, mas que alternava sua exigência, segundo ela muito superior à cobrada nas aulas atuais, com um tenro afeto aos alunos. Ela percebia a importância do acolhimento do professor no desenvolvimento do aprendizado. Desde então, carregou consigo um método pedagógico que pôde desenvolver para a futura docência. Era necessário colocar-se no lugar do aluno, saber suas limitações e preparar o caminho mais apropriado a ser percorrido:

— Você tem de funcionar com a cabeça do aluno e não com a sua cabeça, com aquilo que você já sabe. Eu acho que transmito isso naturalmente para os alunos, de ser exigente e acolhedora ao mesmo tempo – reconhece ela, fazendo alusão à sua característica pessoal mais notável, a simpatia com o próximo.

A dedicação às aulas pianísticas revelou que a música sempre fora sua verdadeira paixão. Tornara-se monitora do conservatório em Bauru e já era habilidosa em peças clássicas de nível de graduação, adiantadas para estudantes no nível de formação musical. Acumulou títulos honrosos, certificados e diplomas, expondo nos palcos o talento e a predestinação da menina prodígio.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou aulas com o notório pianista e professor da Escola de Música da UFRJ, Arnaldo Estrella, até seu falecimento, em 1980. Após a perda do professor, Nely seguiu seus estudos, agora com outro grande nome das salas de concerto do país, Linda Bustani, com quem conseguiu dar um primoroso salto de qualidade na execução das peças, além de atingir um nível de excelência:

— Eu a considero [Linda Bustani] minha mestra até hoje – declara.

Nely, então, preparou-se para enfrentar concursos importantes de piano pelo país. Participou do Concurso Clarisse Leite Dias Baptista, em Bauru, produzida pela própria Clarisse, mãe dos irmãos Baptista, dos Mutantes, e conquistou o terceiro lugar. No período das viagens para concursos de recitais, contudo, Nely já atuava como pianista acompanhante do cantor lírico Paulo Fortes, um dos nomes mais importantes do gênero no país, quando era professor da Escola de Música Villa-Lobos, na época do diretor Aylton Escobar.

— Paulo Fortes foi um dos grandes inesquecíveis cantores de ópera daqui do Rio de Janeiro. Ele trabalhava aqui na escola [de Música Villa-Lobos], e eu acompanhava os alunos dele duas vezes por semana. Ele cantava como solista também, como cantor de ópera e cantava muita musica brasileira. Era uma pessoa muito querida. E eu tive a felicidade de trabalhar e aprender muito com ele – além de Paulo Fortes, Nely passou a tocar junto com outros cantores líricos, todos com atuação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como Fernando Teixeira e Diva Pieranti.

O convite para ingressar na docência da Escola de Música Villa-Lobos surgiu num momento exato em que era preciso ter um trabalho fixo. A indicação surgiu de Arnaldo Estrella a partir de solicitação direta para Paulo Fortes:

— [Paulo Fortes] estava sem acompanhador. Me lembro até nessa época que eu liguei pra ele e perguntei como que vou fazer, o que é pra levar, e ele disse ‘traga seus dedos’ [risos]. Eu nunca me esqueci desta frase. Ele foi super simpático e agradável.

Começou então sua primeira passagem na Escola de Música Villa-Lobos. A instituição promovia concursos de canto lírico promovidos pelo próprio diretor Aylton Escobar, e Nely era a responsável pelo acompanhamento dos candidatos alunos de Paulo Fortes. Ela adorava passar seu tempo na escola apoiando novos talentos do canto lírico, muitos dos quais vencedores de concursos, como Nadia Bertini, que conseguiu ingressar no time de cantores do Theatro Municipal.

Mas ventos da mudança somados ao altruísmo dentro de um gigante coração deixaram Nely distante da Escola de Música Villa-Lobos. Um amigo de infância a convidou para ser professora de uma escola de Araçatuba, em São Paulo. Inicialmente o convite seria para cursos de férias, mas se repetiu a cada mês, até se tornar definitivo. Entre Rio de Janeiro e Araçatuba, Nely optou pela cidade paulista:

— Sempre pensei que você tem que ficar no lugar onde as pessoas precisam mais de você, então nessa época já era quase depois que eu ia ser efetivada aqui [na Escola de Música Villa-Lobos], mas eu pensei que tinha que ir lá porque era uma escola onde as pessoas estavam sem orientação de alguém que tivesse estudado mais – explica, relembrando as dificuldades de acesso que as pessoas que moram fora dos centros culturais enfrentam – Eu também quis dar para o interior uma coisa que na época eu não tive, que é uma outra pessoa com mais conhecimento.

Nely tornou-se uma professora itinerante por um tempo. As memórias recordam viagens ao longo do interior brasileiro, como cenas de um road movie, para dar aulas nos estados do Rio, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Algumas cidades, como Araraquara (SP), Barra Bonita (SP) e Três Lagoas (MS), patrocinavam suas aulas e viagens. O compromisso era para que formasse alunos capacitados para a vida profissional, vencendo concursos nacionais:

— [Havia] cidades em que eu trabalhava, ainda solteira, onde a prefeitura tinha uma verba, o diretor me contratava. Cidades que tinham, assim, uns vinte mil habitantes, eram pequenininhas, e haviam alguns lugares que davam bolsas pros alunos. Só que eu tinha que fazer esses alunos ganharem um concurso, porque era como se fosse uma contrapartida no aprendizado – explica.

A professora conseguiu capacitar uma quantidade suficiente de alunos para que ela própria produzisse seu concurso. O primeiro foi o Concurso Nacional de Piano da Cidade de Araçatuba, em que participavam crianças e jovens de diversas faixas etárias. Elas deveriam reproduzir uma peça brasileira, uma barroca, uma clássica e uma de livre escolha. O concurso durou mais de vinte anos. Formou-se assim uma rede de alunos de piano de diversas localidades que entravam em contato entre si e com grandes nomes das oficinas e do júri, como a cantora lírica Bidu Sayão.

Os anos se passaram, e após a virada do milênio a situação empregatícia ficou apertada. Para salvá-la do fantasma do desemprego, surge uma saída redentora, o convite para voltar a dar aulas semanais na Escola de Música Villa-Lobos. A ponte foi a professora Maria Cristina Nascimento, que a indicou à então coordenadora e professora de regência coral, Denize Vieira. Com alguns problemas no quadro de professores, Nely ganhou alunos para todos os dias da semana, de todos os cursos, Básico, Formação Musical e Técnico. Porém, durante a gestão de José Maria Braga na direção da escola, houve uma reformulação nos cursos em que alguns professores migraram para os cursos públicos. A partir de então, passou a ser professora exclusiva do Curso Formação Musical, ensinando dezenas de crianças até 12 anos na iniciação pianística.

— Quando eu saí daqui [da Escola de Música Villa-Lobos] eu falei: ‘ai meu Deus, eu acho que estou fazendo a escolha certa, as pessoas precisam muito de mim’. Quando deu certo [a minha volta] para cá, eu mais que me desdobrei, porque eu saí não querendo sair, entende? Eu saí por uma necessidade, aí quando eu voltei, fiquei super emocionada. Para você ter ideia, até hoje quando eu vou ali no ônibus, eu nem sinto meus passos, quando eu vejo cheguei aqui – diz, como uma personagem cinematográfica que flutua sobre nuvens de notas musicais.

Em quase 40 anos de docência, Nely ainda aprende muito com seus alunos. Para ela, todo dia é uma pauta em branco a ser preenchida, por mais que se carregue toda a experiência do mundo, pois entrar no universo de qualquer aluno é sempre um recomeço.

— Eu acho que o que eu mais aprendo é que eu estou sempre começando. E sempre venho como um papel em branco, digo ‘olha, aqui nós vamos aprender juntos’. Sempre procuro ensinar com a cabeça do aluno, não com aquilo que você sabe, porque aquilo que você sabe, você sabe. Você tem de ter uma relação totalmente desarmada de ambas as partes para as coisas funcionarem, e as coisas, elas são lentas, não são espontâneas assim. Tem uma frase do Reginaldo Beça, que foi meu colega de faculdade e hoje é compositor, ele dizia o seguinte: ‘o tempo não para na curva, não espera ninguém, ele vai passando’. Eu estou aqui com você, e está correndo o tempo, então você tem que estar sem essa pressa do tempo, deixar ele correr.

O metrônomo corre ininterrupto sobre a pulsação constante e imaginária da música. Mas como no cinema, o tempo musical é relativo e se aplica na arte a partir da desenvoltura do músico ou do diretor. A fascinação com este universo subjetivo, característico das expressões artísticas, fica evidente na expressão de satisfação da professora. Filosofar sobre a expressão musical sempre foi um passatempo preferido de uma geração que vivia as pulsações de uma época em que os diversos campos artísticos gritavam suas ideias nos megafones, e o cinema servia para amalgamar todas as tendências:

— A coisa da musica é que ela evapora. O som, ele é uma coisa que você conquista para você, é como se você tivesse com um balão na sua mão, uma bexiga. Aí você está lá com o seu balão, contente, colorido, de repente, você larga, e ele sai da sua mão. Se você se desconcentra, a música deixa de existir.

 Texto e entrevista: Pedro Soares