Marcos TeixeiraO niteroiense Marcos Teixeira atravessa a Baía de Guanabara com sua bicicleta e chega à Escola de Música Villa-Lobos aguardado por dezenas de alunos ansiosos para mais uma aula de prática vocal. A voz potente e grave de cantor lírico contrasta com o coração afável de quem consegue juntar dezenas de aspirantes a músicos em verdadeiros espetáculos musicais nas audições de fim de semestre. Quem conferiu a apresentação da “Banda de Cantos Encantos”, com alunos de todos os instrumentos, nas últimas audições, pôde perceber isto de perto.

Além de construir uma carreira de cantor lírico com atuações em óperas como Turandot (Giacomo Puccini), Aida (Giuseppe Verdi) e Carmen (Georges Bizet) e ter integrado durante 30 anos o grupo de canto de Aurélio Silveira, o professor Marcos Teixeira também desenvolveu uma larga experiência no campo da editoração de partituras, iniciada com a utilização da informática para confecção de material didático para a Escola de Música Villa-Lobos nos anos 1990, o que lhe rendeu a oportunidade de se tornar editor de livros de ensino musical e de songbooks da renomada editora Irmãos Vitale.

Reunir pessoas para celebrar a música sempre foi um costume da família Teixeira. Eram seis filhos com vocações musicais fortíssimas, além dos pais que costumavam ensaiar dobradinhas musicais pela casa. O pai, José, era um violonista de concerto que deixava seus violões espalhados pelos cômodos e que pedia para a mãe, Cléa, uma assistente social, acompanhá-lo com sua bela voz enquanto fazia as tarefas domésticas. Os irmãos, mais velhos, tiveram lições de violão, enquanto o caçula Marcos encantava-se com toda a musicalidade familiar, às vezes puxava as cordas do instrumento para descobrir sua magia, de onde saía o som, se arrebentavam, enfim, o que resultava numa bronca do pai. Acabou por não ter aulas de música na infância. Por uma grande ironia, nenhum dos irmãos tornou-se músico, e Marcos ainda se pergunta por que não houve esta obrigatoriedade a ele:

— Tem advogada, secretária executiva, irmã que trabalha com imóvel, irmão com transporte de executivo, outro que trabalha com eletrônica. Ninguém sabe dizer exatamente por que nenhum seguiu carreira mesmo tendo estudado – indaga, mas afirma que todos continuam muito musicais, e que a família Teixeira ainda se reúne para tocar e cantar juntos.

Na casa havia os violões do pai, mas a primeira experiência na iniciação musical foi com o piano armário que ficava na casa vizinha, onde morava a avó. Aquele móvel velho, que pertencia a uma tia e que parecia não ter muita serventia, foi aberto certa vez por uma namorada do irmão, que executou melodias que despertaram de vez o interesse do jovem Marcos. Os pais então economizaram nas contas para colocá-lo em aulas de piano. As lições duraram por cinco anos, até que a necessidade do complemento de renda bateu mais forte. A professora já dava sinais de desesperança ao aluno que não tinha mais tempo para se dedicar aos estudos, já que, em casa, havia surgido a pressão para que o filho seguisse a carreira do segundo irmão mais velho, que trabalhava com eletrônica.

Fez um curso técnico em eletrônica, e passou a ajudar o irmão na manutenção de aparelhagens de som. O tempo todo havia música, mas ainda assim não passava por sua cabeça seguir carreira de músico. A tia, dona do piano, além de ver no garoto um artista em potencial, era sua conselheira particular de problemas comuns da adolescência. Certa vez, ao procurá-la para ajudá-lo a resolver um destes conflitos, Marcos a encontrou numa igreja participando de um coral. A família católica sempre foi religiosa, e ver o sobrinho ali encheu a tia de orgulho. “Ela devia achar que eu estava melhorando, porque eu estava numa fase rebelde”. Apresentou o sobrinho ao padre regente, e o garoto, educado, foi logo convidado a participar do coral. O padre, ao ouvir a sua voz, já bastante grave para um adolescente, não teve dúvidas e o convocou para integrar de vez o grupo.

No período de um ano, Marcos Teixeira passou do primeiro coral, na Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora (Salesianos) ao Coral de Câmara de Niterói, regido por Roberto Duarte e auxiliado pela maestrina Lydia Podorowsky, que desde a primeira audição namorava aquela voz grave e empostada. “Ela veio até mim, disse que eu tinha uma voz muito boa, que é difícil [encontrar] um baixo, uma voz grave”, relembra. Este foi então o maior estímulo para a decisão de se tornar músico profissional, tentar uma universidade e vencer o estigma do músico como um sujeito “farrento”, concepção que levava consigo desde sempre.

— A família não via com simpatia a ideia de seguir profissionalmente, e eu não tenho essa coisa de farra, mas eu percebi que era uma coisa séria, apesar de não saber muito bem o que era – explica.

Passou a receber convites para cantar em grupos reduzidos para casamentos, com direito a remuneração. A perda precoce da mãe o abalou por um período, chegando a interromper a agenda de apresentações, mas não esmoreceu: os convites continuaram até surgir a oportunidade de integrar o quarteto vocal do professor Aurélio Silveira, um importante nome da música brasileira que deu aulas para músicos como Egberto Gismonti e Márvio Ciribelli. O quarteto, que teve muitos nomes, mas ficou conhecido como “Aurélios”, em homenagem ao seu fundador, tinha ainda Magali Borges (soprano), Nadyr Alfonsi (contralto) e Rubem Geraldo (tenor).

— [Cantamos] em casamentos, cerimônias religiosas, missas de sétimo dia… Todo final de semana, sexta e sábado, e aquilo ajudava minha renda, era um trabalho profissional mesmo, sempre cantando como baixo – recorda. O grupo durou firme por mais de 30 anos.

Com o incentivo da professora Lydia Podorowsky, Marcos Teixeira prestou vestibular para Canto na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Se fez um Teste de Habilidade Específica elogiável, zerou a prova de Física, o que o reprovou. Mantendo a tradição das tias que incentivam os sobrinhos, havia uma que era freira e morava num convento em Minas Gerais. Este convento tinha uma parceria com o Conservatório Brasileiro de Música. A indicação chegou ao sobrinho, que se dedicou durante um ano para então ingressar no conservatório como aluno de bacharelado em Canto, onde teve aulas com Maria da Glória Benigno e Maria Lúcia Valadão. A primeira, logo no início da faculdade, notou a excelente didática do aluno Marcos Teixeira e, por conhecer o professor Leopoldo Tosa, coordenador da Escola de Música Villa-Lobos na época, indicou o pupilo para dar aulas.

— Jamais tinha pensado em ser professor, não tinha passado pela minha cabeça. A essa altura eu queria cantar, e eu já vinha passado em vários grupos, e tinha me fixado nesse do professor Aurélio – relembra.

Em 1993, Marcos Teixeira já era professor da Escola de Música Villa-Lobos (EMVL), e com a vinda do diretor Marcos Nogueira, Teixeira foi apresentado à informática aplicada à editoração de partituras, o que deu uma ótima complementação em sua profissão de músico. Envolveu-se tanto com a prática de softwares como Finale a partir de aulas de editoração com o professor da EMVL, Leandro Pereira, que mandou currículo para muitas editoras, dentre as quais uma das mais tradicionais no mercado brasileiro, a Irmãos Vitale, conhecida pela série de songbooks e livros didáticos. Teixeira produziu séries como “O melhor de”, com canções de Carmem Miranda e Johnny Alf, além da série “Essencial”, de músicos como Tom Jobim, Mário Lago e Luiz Gonzaga, e livros com métodos didáticos, sendo o último de autoria do professor Antonio Adolfo.

Comprometido com o quarteto do professor Aurélio, os trabalhos com editoração e as aulas na Escola de Música Villa-Lobos, Marcos Teixeira acumulou estas funções durante quase duas décadas. Em 2011, sofreu uma parada cardíaca que o desestabilizou. Com o coração recuperado depois deste momento difícil, foi recomendado pelos médicos a voltar à rotina aos poucos e com mais leveza. Foi diagnosticado com uma depressão pós-enfarto, algo comum em pacientes que sofreram de parada cardíaca, e ficou desestimulado em regressar ao coral do professor Aurélio. “Alguma coisa saiu do lugar dentro da minha cabeça e eu interrompi, parei efetivamente com aquele trabalho [quarteto de vozes], e parece que também agora fechei um ciclo, não penso em voltar a cantar em casamento, aquilo já deu, já foi, ainda que me ajudasse financeiramente”, explica.

Hoje vem todos os dias de Niterói ao Rio de Janeiro, pelas ruas e pela barca, com sua bicicleta para manter o fôlego e o coração saudável, o que também o ajuda a seguir no ritmo das aulas para turmas cheias. Como mencionado anteriormente, Marcos Teixeira não tinha expectativa de trabalhar com música, muito menos se tornar professor do ramo. Ironia do destino, tornou-se cantor lírico e professor. Quando começou a dar aulas, logo no início da faculdade, não sabia a melhor forma de ensinar as práticas do canto em aulas coletivas. Acabou por desenvolver sua própria “loucura”, fazendo com que cada aluno cantasse para o restante da turma, que serviria de plateia. O que poderia ser um constrangimento para os mais tímidos revelou-se numa excelente forma de interação: o número de alunos aumentou, e as classes muitas vezes ficavam com as portas abertas para que mais pessoas apreciassem. Nasceu então o desejo de fazer apresentações com os próprios alunos. Nas audições do último semestre, surgiu a “Banda de Cantos Encantos”, com seus estudantes de cantos e também de outros instrumentos:

— O objetivo é só aluno participar. Eu não participo, nenhum professor participa. A ideia é abrir espaço para os alunos formarem a banda, tentando fazer uma coisa rotativa (o que me deixa extremamente enlouquecido), mas dando oportunidade a mais de um guitarrista, mais de um contrabaixista. A participação é global – explica. A interação também: nos ensaios, alunos mais experientes acabam ensinando os mais iniciantes, preferências musicais diversas eclodem, e realiza-se assim um dos maiores objetivos da Escola de Música Villa-Lobos, estimular a prática de conjunto – Eu acho isso interessantíssimo, essa reunião, essa ideia de fazer um espetáculo, um show. Não simpatizo com [a expressão] “apresentação dos alunos de canto – diz”. A audição transforma-se então numa simulação de um verdadeiro espetáculo, e surge de ensaios exaustivos, ganha forma, até ficar minimamente apresentável – Não está em questão eventuais erros, porque no fundo todos são alunos – explica o professor.

E para quem não tinha experiência com aulas em conjunto, Marcos Teixeira desenvolveu, a pedido de Leopoldo Tosa, um samba para coro a quatro vozes onde os cantores fazem uma percussão vocal que imita a bateria de uma escola de samba. O método ganhou o nome de “Ti-Ki-Ti-Ki-Pá” e revelou extrema eficiência para alunos principiantes na leitura e escrita musical. A partitura para o exercício caiu na internet, e grupos de canto de diversos estados brasileiros e do exterior aproveitaram:

— [A partitura] ‘vazou’ e acabou ganhando o mundo. Me deparei com um vídeo postado no Youtube, do concerto de fim de curso do Joven Coro de la Fundación Princesa de Asturias, na Espanha. Fiquei impressionado [com a repercussão] – finaliza. O verbete “Tikitikipá” na busca do Youtube lista também vídeos de corais de Marília, Piracicaba, Votuporanga, Uberlândia, dentre outros.

 Entrevista a Pedro Soares