FB_IMG_1453077665947Um dos professores mais presentes nas turmas do Curso Básico da Escola de Música Villa-Lobos, o músico tijucano Marcos Marques, conhecido por todos como Marcão, é uma figura de forte personalidade notada pela altura de mais de um metro e noventa, e a voz potente de barítono. As turmas de leitura musical conhecem seu jeito pragmático em sala de aula, sabem que com ele não há meio termo, mas talvez não conheçam a trajetória profissional que o levou a ser responsável pela alfabetização musical de centenas de alunos a cada semestre. Muitos também ficariam surpresos em saber que uma de suas maiores paixões é o repertório de música brega, seara a qual conhece profundamente e ainda planeja retornar com seu projeto de brega n´roll.

Marcos Marques nasceu em São Paulo e passou sua infância em Jundiaí, município do interior paulista, onde já soltava as primeiras notas ao cantarolar versos de Moacyr Franco. O repertório continha ainda Roberto Carlos, Paulo Sérgio e outros ícones do cancioneiro popular, ecoados pela casa e nas rádios. O pai Dilson, médico carioca, após serviços prestados na terra da garoa, voltou com a esposa e os três filhos ao Rio de Janeiro, radicando-se no bairro da Tijuca, zona norte carioca. Era moda colocar os filhos para tocar piano, e lá foram os três irmãos para aulas com uma professora particular do bairro vizinho de Vila Isabel, conhecida como Dona Ester (não confundir com Esther Scliar). As aulas foram entediantes para os irmãos, mas o interesse do garoto não cessou. A mãe Elvira decidiu, no entanto, retirar toda prole das aulas, deixando o contato direto com a música a cargo do coral da Igreja Batista que frequentavam, e que contava com a maestrina Elza Lakschevitz, além das brincadeiras no piano da sala.

Aliás, não foi só a maestrina que surgiu entre nomes importantes na trilha profissional de Marcos Marques. Aos 13 anos, diante da asma do irmão, a família fora recomendada a procurar aulas de trompete, e o nome indicado foi o do professor e maestro Joaquim Naegele.

— Anos mais tarde, dei aulas num projeto de bandas da Funarte, e aí eles viram o nome do maestro no currículo, porque o cara era genial mesmo, era o maior arranjador de banda do Brasil. Ele só não dava aula na casa dele de piano e harpa, porque não tinha piano nem harpa, mas instrumento de sopro, todos, violão, contrabaixo acústico. O cara era um gênio – relembra.

Enquanto o irmão assoprava o trompete, Marcão tinha aulas de violão clássico, exercícios de leitura e cifragem de músicas. Além das lições aprofundadas com um maestro brasileiro de renome, complementavam o aprendizado as revistinhas de cifras, numa época em que elas abarrotavam as bancas de jornal. Na igreja, participava dos corais da professora Elza. A maestrina era chefe do Projeto Villa-Lobos, desenvolvido pela Funarte, e o encaminhou para o Curso Técnico da Escola de Música Villa-Lobos, onde teve aulas de canto com a professora Maria Aida Barroso, exercícios de violão com Ivo Cordeiro, além de teoria musical com Sérgio Freitas (este sim tem, em seu currículo, aulas com Esther Scliar).

O ouvido e a percepção musical se aprimoravam com o tempo, mas a disposição para atividades esportivas fez com que a primeira escolha profissional fosse a Educação Física. Aprovado na Universidade Gama Filho, transferiu-se para Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Mantinha os estudos musicais em paralelo quando, indicado pela maestrina Elza, procurou a professora e pianista Marcilda Clis para preparar-lhe, finalmente, para o ingresso numa universidade de música. Mas restava ainda um ano para concluir a graduação na Uerj. O dia do Teste de Habilidade Específica (THE) para o ingresso na Licenciatura em Música na Uni-Rio foi o último como futuro educador físico:

— Eu sou prático. Pensei: vou fazer o THE. Se eu passar, abandono [a graduação em Educação Física]. Nem trancar eu tranquei, não me despedi de ninguém. Tenho a facilidade de bater porta – admite.

Marcos Marques conseguiu ser aprovado no vestibular. Logo no início do curso, como aluno de Licenciatura, deveria optar por estudar dois instrumentos, e os escolhidos foram piano e violino. Estudou ainda saxofone devido à regência, e se aprofundou no canto durante ingresso no curso técnico da mesma universidade, dado pela professora Eliane Sampaio, conhecida por formar cantores que hoje integram conjuntos de ópera e atuam no exterior. Certa vez, a prestigiada professora usou de toda sinceridade para expor sua opinião ao aluno Marcos Marques:

— Ela disse na minha cara que minha voz não servia pra muita coisa. – ele logo explica, compreensivo, que por sua altura e o tom de voz de tenor (tenor dramático, mais para barítono), não haveria muitos papéis – Para um garoto de 25 anos que acha que o mundo é dele, ouvir isso não foi muito legal – confessa.

Casado e com três filhos, ele, no entanto, tinha certeza de que seguir carreira de cantor de ópera não era o pretendido. Fez curso de regência coral, em que teve aulas com Carlos Alberto Figueiredo, uma das maiores referências do cenário atual do canto coral, mas à medida que se aprofundava – ingressou até na especialização em regência – não conseguia se imaginar regendo gravações de discos e nem havia orquestras para ele reger na universidade. Esforçou-se em seguir na academia como pós-graduado, tentando emplacar um estudo sobre canto popular. O que mais encontrava nas pesquisas eram estudos sobre musicais da Broadway. Encontrou ainda três livros da cantora e também professora Tutti Baê, “Canto uma expressão”, “Uma consciência melódica” e “Canto – equilíbrio entre corpo e som”, que até hoje utiliza em suas aulas. Em Nova Iorque, descobriu alguns raros livros sobre sketchsinging, ou improvisação vocal. Foi aprovado no mestrado, mas logo no início, sofreu outro baque desestimulante, desta vez pelo próprio diretor do curso, que o advertiu de que o que os alunos deveriam estudar mesmo era a tradição do canto e sua história, e não as inovações. Ser tratado por eles ainda como aluno era algo intragável para um sujeito de personalidade forte, e a advertência teve uma resposta (ou melhor, um questionamento crítico e direto no calcanhar da academia) no mesmo nível: diante do próprio diretor, quis saber como todos eles poderiam se dizer doutores em música se não regem, nem tocam, nem cantam, nem compõem. O mal estar acabou resultando no abandono do mestrado. Realmente, sua capacidade de bater porta é grande.

Em 1996 começou a dar aulas na Escola de Música Villa-Lobos, local em que o contato com diversos alunos de faixas etárias e níveis de aprendizado distintos o permitiu aumentar a dedicação ao universo dos gêneros populares, aplicando assim os estudos adquiridos nas pesquisas da universidade. Aprimorou seu gosto pela alfabetização musical nas diversas formas de fazer os alunos compreenderem a linguagem da música, sua sintaxe e seus signos, além da importância fundamental da percepção, maior que a própria teoria, para se conseguir ouvido, leitura e escrita satisfatória:

— Tive um aluno com mais de 70 anos. Na Percepção I, ele não conseguia fazer nada. Na Percepção II, ele já não usava nem a borracha, escrevia direto, e não era aluno nem de violino nem de piano, era de percussão popular – orgulha-se.

O exemplo, porém, pode ser uma exceção, e Marcos Marques explica que, para crianças, o raciocínio abstrato pouco desenvolvido facilita em absorver a prática musical. Na fase adulta, cabe ao aluno desenvolver um jeito próprio de absorver esta prática já que seu raciocínio abstrato é maior. Soma-se também a memória musical já consolidada, ponto crítico para o professor, devido à geração que hoje está na faixa dos 30 e 40 anos ter sido educada musicalmente, sobretudo, pela mídia televisiva e suas apresentadoras infantis. Alunos mais velhos, ao contrário, possuem uma memória musical que se remete aos cantores de rádio, de vozes empostadas e melódicas, como Dalva de Oliveira e Ângela Maria. O estilo de cantar das novas cantoras, que impera nos atuais e repaginados programas de calouros da televisão, padronizam-se conforme o mercado de divas da cultura pop norte-americana. Uma de suas alunas foi convidada para cantar em um destes programas, mas a versão de “Trem das onze”, de Adoniram Barbosa, na roupagem de Beyoncé proposta pela candidata levou o professor a uma sinceridade semelhante ao que ouviu quando fora preterido do grupo de ópera universitário:

— Peraí, quem é você? Adoniram Barbosa era um gênio, pode ser que você venha a ser uma grande cantora, mas por enquanto você não é nada. Não muda a música do cara não. Se você conseguir cantar o que ele fez, já é coisa pra caramba – afirma, com a severidade de costume.

Marcão relembra da palestra do experiente produtor musical Wilson Nunes, durante o Programa de Apreciação Musical ocorrido em 2015 no Auditório Guerra-Peixe, em dias de Rock in Rio, quando foi debatido se o que era visto naqueles grandes palcos era entretenimento ou era música. Ele não se considera um teórico ou intelectual da música, o que gosta mesmo é de interagir com os alunos iniciantes, formar grupos musicais, conversar sobre experiências adquiridas no cenário das apresentações, e não se censura em opinar sobre cantoras badaladas na cena pop brasileira contemporânea:

— A gente está numa época em que Clarice Falcão é cantora.

— Mas não se trata de um estilo de cantar?

— É. Meio adolescente, meio mais ou menos. É ruim, né?

O veredicto, porém, não ocorre à toa:

— A diferença entre o que é um dó e um dó sustenino é pequena, mas ao mesmo tempo é muito grande. Um semitom tem muitas comas [o menor intervalo que o ouvido humano consegue perceber], se você ouve um acorde de dó maior (dó, mi, natural, sol), e se você coloca um bemolzinho nesse mi, o acorde fica completamente diferente. E é só meio tom. Na afinação da voz, e a voz é um instrumento não temperado, a própria pessoa não percebe que o que ela está cantando é mais ou menos aquilo ali, mas não é aquilo ali – explica.

O temperamento de quem bateu muitas portas ao longo da vida não afetou o carinho das turmas pelo professor, que é um dos mais queridos da Escola de Música Villa-Lobos e possui um séquito de pretendentes a cantores e cantoras. Com os alunos ansiosos para soltar a voz, surgiu então a ideia de, a cada semestre, ser realizado uma apresentação com palco aberto num restaurante no bairro de Laranjeiras, zona sul carioca. A proposta deu tão certo, que durante três anos as apresentações foram mensais, e Marcão chegou a tocar uma média de 40 músicas diferentes por encontro. Num determinado dia de seu aniversário, comemorado em outubro, recebeu uma homenagem especial de seus alunos: por ter nascido no interior de São Paulo, o repertório foi exclusivamente brega. Decidiu então levar a sério e colocar em prática releituras mais modernas de clássicos do brega. Canções de Wando e Reginaldo Rossi ganharam versões mais rock n´roll, ou foram mescladas, como na introdução de Jumpin Jack Flash, dos Rolling Stones, que se emenda com os versos “você é luz, é raio, estrela e luar”. Ele recorda ter conhecido pessoalmente alguns cantores menos relembrados do público, como Bartô Galeno, que era quase seu vizinho e o foi apresentado por intermédio de uma aluna.

— Essa expressão “brega”, no Nordeste, quer dizer puteiro. Na década de 1950, virou empregada doméstica. Os temas abordados são esses mesmos: ‘eu vou tirar você deste lugar’. Mas tem muita música maneira, que a Elza Soares grava, e dizem ‘pô, legal!’, e é Fernando Mendes, bregão da melhor qualidade – defende – Eu quero fazer um brega n´roll, colocar um instrumental. Misturar a cultura brega com a cultura pop e ver que salada que dá.

Entrevista: Pedro Soares