Quem se depara com o professor João Carlos Assis Brasil nos corredores da Escola de Música Villa-Lobos talvez não perceba o que ele representa para a música brasileira e – por que não? – internacional. Seu semblante demonstra uma humildade incomum, olhar sempre observador e atencioso aos que o cumprimentam, uma estatura de pouco mais de um metro e meio, e braços que aparentam fragilidade, mas que basta uma piano para demonstrarem todo seu vigor.

Se os pianos da escola falassem, certamente fariam questão de se mostrarem orgulhosos de poderem ser tocados por João Carlos Assis Brasil. A história do pianista retrata um enredo de entrega total à música, e tudo começou quando ganhou um piano de brinquedo dos pais, Elba, nordestina, e Victor, sulista, aos três anos de idade. Não eram músicos, mas apreciadores de jazz e música clássica. A veia artística veio da mãe, dançarina que abandonou o ofício com a vinda dos filhos. Se esta é a origem genética do dom artístico de João Carlos, também é a de seu irmão gêmeo, Victor Assis Brasil (1945-1981), que se transformou num dos maiores nomes do saxofone brasileiro.

A diferença, porém, em relação ao irmão, autodidata, descoberto aos 16 anos por nada menos que Paulo Moura, é que João Carlos rumou para o aperfeiçoamento técnico desenvolvido nos conservatórios, desde cedo. “Eu tive aula desde o início, era outra formação. São anos e anos. O Victor aprendeu saxofone sozinho, e ganhou uma bolsa para tocar em Berkley [EUA]. Ele era garoto e foi. Chegou lá, tocou, o professor de saxofone falou: “vem cá, afinal você está aqui para aprender ou para ensinar?”, relembra, orgulhoso do irmão.

Com sete anos, João Carlos Assis Brasil ganhou o primeiro concurso no Conservatório Brasileiro de Música, e desde então se tornou um talento prodígio acolhido pelas salas de concerto para acompanhar diversas orquestras. Se o irmão Victor foi apadrinhado por Paulo Moura, quem levou João Carlos para estudar na Europa foi o pianista brasileiro Jacques Klein (1930-1982), um dos mais expressivos do país e que também deu aulas para Egberto Gismonti e Arnaldo Cohen.

 “Jacques Klein, um grande pianista, um grande professor, devo tudo o que eu sei a ele”

Após ganhar um concurso na Bahia, foi encaminhado pelo professor para receber uma bolsa de estudos na França. João Carlos estudou em Paris, Londres e Viena ao longo da década de 1960, e foi na capital da Áustria, em 1965, que ele ganharia o terceiro prêmio do Concurso Internacional Beethoven, acompanhando, em seguida, a Filarmônica de Viena por toda Europa. De tantos concertos em turnê, ele se recorda de um momento especial, na sala Brahms-Saals, em Viena, quando tocara uma sonata de Beethoven de alto grau de dificuldade. Ao encerrá-la, o público o ovacionou batendo o pé no assoalho do teatro, urrando: “É algo que eu nunca mais vou esquecer”.

A exclusividade à música de concerto, no entanto, não combinava com seu gênio criativo de compositor que, segundo ele, “compõe desde o berço”: “A diferença entre o pianista erudito e o popular, de jazz, é que o erudito tem que interpretar do seu jeito, mas seguindo as normas que o compositor quis, respeitando rigorosamente o texto, aquilo que foi criado; e o pianista de jazz, popular, tem que ser o compositor, tem que improvisar em cima daquelas músicas”, explica em tom professoral.

“Eu me sinto completamente à vontade na musica popular”

No início dos anos 1970, quando residia em Nova Iorque, teve contato com uma pulsação musical diversa, e passou a flertar com a música popular, iniciando uma relação que iria expor ao mundo a versatilidade de João Carlos Assis Brasil.

“Sempre adorei música popular, sobretudo a americana, e adoro tocar popular, mas do meu jeito, de uma maneira clássica. Resolvi abrir todos os caminhos possíveis. Eu me sinto completamente à vontade na musica popular, tendo a base total que me propiciou a fazer tudo isso, que é a música erudita. Sem ela nada feito”, sentencia.

 

O repertório ao qual o pianista tanto aprecia pôde ser conferido na abertura do projeto Prata da Casa da Escola de Música Villa-Lobos. Com sua turma de improviso, João Carlos Assis Brasil levou ao Auditório Guerra-Peixe canções clássicas do cinema de Hollywood dos anos 1930 aos 1960.

 

Quando voltou ao Brasil, depois dos anos em Nova Iorque, João Carlos tocou ao lado de instrumentistas consagrados e que transitam entre o clássico, o jazz e o popular, como os pianistas Wagner Tiso e Clara Sverner, o violonista Turíbio Santos, e os cantores Zé Renato, Alaíde Costa, Olívia Byington e Ney Matogrosso. Curiosamente, se perguntado sobre seus gostos na música popular contemporânea, o pianista volta ao passado para elencar qualidade. “Não há nada na música popular contemporânea que me agrada. Foi até Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano e Gil, os [Novos] Baianos, mas hoje em dia, não sei te dizer. Acho tudo tão ruim, algumas coisas são boas”, e pesca na década de 1980 um músico que mais lhe agradou, que não é tão popular, nem tão contemporâneo: “Aquele menino, Arrigo Barnabé, é muito bom.”

“O que interessa é tocar um música que possam entender, tem que ter um entendimento, senão não adianta”

 

Com um estilo particular de entertainer dos palcos, mas com uma função didática de formação de apreciadores musicais qualitativos, idealizou o projeto na antiga TVE, atual TV Brasil, denominado “Instrumental Informal”, qual ele próprio apresentava e convidava diversos nomes da música instrumental brasileira, entre artistas consagrados e revelações. O objetivo era levar a diversidade musical de uma maneira leve onde o público pudesse assimilar facilmente. “O que interessa é tocar um música que possam entender, tem que ter um entendimento, senão não adianta”, explica.

“… não me interessa o nível, “neandertal” ou altíssimo. O que me interessa é o interesse.
Se tiver no nível zero, mas com interesse, dou aula com maior prazer, não importa”

 

A dedicação à música também nunca foi exclusiva aos palcos, mas também ao ensino. Enquanto aluno de professores renomados, como Jacques Klein, João Carlos aproveitava as monitorias para também se formar como um grande professor. Para ele, a docência se assemelha às apresentações, pois ambas requerem entrega total e permitem a aproximação do artista, com o público e com alunos interessados.

 

Assis-Brasil-Joao-Carlos-05[2008]

“Tenho o maior prazer [em dar aulas], gosto muito. É algo completamente diferente [de se apresentar]. Quando a gente se apresenta, é um prazer enorme. Mas a docência tem uma coisa parecida, você tem que transmitir, mas de outra forma. Eu digo sempre a eles: não me interessa o nível, “neandertal” ou altíssimo. O que me interessa é o interesse. Se tiver no nível zero mas com interesse, dou aula com maior prazer, não importa”, diz ele, que dá aulas para estudantes de piano do Curso Básico.

 

Um de seus sonhos é fazer com que os alunos da Escola de Música Villa-Lobos aprendam as músicas do irmão Victor Assis Brasil. João Carlos deixou muitas de suas  partituras no acervo escolar, disponíveis para o aprendizado. “É importantíssimo os alunos tocarem [sua obra], que é maravilhosa. Não é porque é meu irmão, é que ele foi um gênio, o maior saxofonista que o Brasil já teve, um dos maiores compositores que eu já conheci, deixou quase 300 músicas, e eu sou a única pessoa que ainda toca as coisas dele. Tem que ser feito um trabalho de base em que essa obra toda fosse difundida”. Victor Assis Brasil teve uma vida curta, encerrada decorrente de uma poliarterite nodosa.

 

João Carlos Assis Brasil acredita mais em missão do que em talento inato, dom. Seguidor do Budismo, ele acredita que sua função na Terra é proporcionar alegria às pessoas por meio da música. Supera todas as dificuldades colocando-as como se fossem obstáculos a serem vencidos. Teve uma bronquite série há meses atrás que o obrigou a se internar e se afastar do piano. Anteriormente, um cisto na coluna o afligiu, tendo de andar de cadeira de rodas sem, no entanto, largar a agenda de apresentações. “Ter nascido no Brasil é um carma. Um carma brabo. Se fosse na Europa, nos Estados Unidos, em outro lugar, era muito mais fácil. Quando você tem uma dificuldade, você começa a ficar espiritualmente mais forte, é essencial pra viver, é um privilégio. Só através dela é que há crescimento.” Hoje, aos 70 anos, demonstra um vigor admirável, e a paixão pela música o torna cada vez mais forte:

 

“Sim, eu sou um concertista no auge, eu sei que estou entre os melhores, tenho essa consciência, não vou negar,
[mas] não me preocupo em que nível que estou, a única coisa que eu gosto de fazer é dar alegria ás pessoas”.