_DSC8665O professor de violão Henrique Lissovsky diz que não se considera um violonista. Não quer se limitar a qualquer rótulo que o limite enquanto músico, já que também atua como cantor, arranjador e compositor. Reconhecido por nomes de importância como Leo Brouwer e Philip Catherine como um músico jazzístico hour concours no XI Carrefour Mondial de la Guitare, a história de Lissovsky mostra uma trajetória em que a música o carregou pelo braço desde a infância, com as lições da mãe pianista dentro de casa e a boemia carioca nas ruas, até quando abandonou a faculdade de Biologia para se tornar um concertista internacional.

No decorrer dos anos 1960, o pequeno Henrique crescia nas ruas do bairro de Santa Teresa, ao redor de artistas e boêmios acostumados a levar a arte para fora de casa, e ele contribuía com sua flauta doce e instrumentos de percussão. Dentro de casa, era acostumado desde cedo a ouvir obras de impressionistas franceses dos vinis e do piano da mãe Rachel, professora e concertista com formação em Paris. Porém o que o impressionava mesmo eram dois álbuns em particular da discoteca, o dos estudos de Villa-Lobos, interpretados por Turíbio Santos, e o do concerto ao vivo de Baden Powell na Alemanha.

– O ouvido da gente está pronto desde dentro da barriga – afirma com a certeza de um cientista.

Quando completou 10 anos, ganhou de presente da mãe um violão para que recebesse aulas particulares. Grande incentivadora, Rachel o iniciava também no que era vanguarda entre os anos 1960 e 1970. Apresentava-lhe discos dos Mutantes e, como se prenunciasse o futuro do filho, o levava para ver shows instrumentais de altíssima qualidade de artistas que mais tarde iriam tocar em suas próprias composições, como o baixista Paulo Russo, o saxofonista Mauro Senise e o baterista do grupo Azymuth, Ivan Conti “Mamão”. Contudo, as tais dúvidas existenciais que surgem durante a juventude o fizeram desviar do caminho que o tornaria mais rapidamente um músico profissional. Ingressou na Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chegando a se tornar diretor cultural do Centro Acadêmico, onde guardava seu violão todos os dias num armário trancado a cadeado. Percebeu que diariamente estava acordando cedo para se deslocar até a Ilha do Fundão para passar mais tempo tocando violão do que indo às aulas. Arriscou-se em se inscrever no vestibular para música mas, por desleixo próprio ou preciosidade do tempo, no dia do teste de habilidade específica, estava passando uma temporada no Pará, às margens do Xingu, usufruindo o convite que um professor de genética molecular, que também estudava violão, fez à turma.

Henrique tentaria outra vez e, para isso, inscreveu-se no Curso Técnico da Escola de Música Villa-Lobos. Foi logo aprovado para o Curso de Regência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, local onde percebeu que a música poderia ser abraçada em incontáveis outras possibilidades. Concluiu com perfeição as lições de Instrumentação e Orquestração na classe do professor e compositor Ronaldo Miranda, que mostrou as várias maneiras de se trabalhar com orquestras, cantos e solos:

– [Ronaldo Miranda,] compositor sensacional. Colocou a gente para orquestrar Dori Caymmi, orquestração de Brahms, abriu bastante essa ideia de orquestração e me transformou num músico mais completo – diz com gratidão – Somos um veículo. O maestro arranjador atinge uma consciência sensorial mais ampla. Escrevo pro sax, pros metais, preciso continuar me aprofundando, saber como funciona, pesquisar timbres além do violão.

Aos 32 anos, resolveu recuperar os estudos do violonista cubano Leo Brouwer, referência internacional do violão contemporâneo, que conhecia desde os tempos em que aprendia as primeiras lições do dedilhado em Santa Teresa. O objetivo era mandar uma composição sua a uma bienal da Martinica em que a sumidade era presidente do juri. Queria apenas que o ilustre jurado o ouvisse. De forma inesperada, ganhou menção honrosa e ainda se aproximou de Brouwer, a ponto de convidá-lo para uma masterclass no Brasil.

– Era o sentimento de gratidão a que eu tinha. Infelizmente, a gente não conseguiu conectar com a orquestra. Mas ele veio ao Rio para a masterclass, o que me valeu um forte e afetuoso abraço do maestro, algo que eu guardo pra sempre – agradece.

Atuou, então, como violonista em concertos em centros culturais paulistas e cariocas, tanto como solista como quanto acompanhador de cantores do naipe de Inácio de Nonno, Ruth Staerke, Maria Lúcia Godoy, Paulo Fortes, Daniella Carvalho e Lício Bruno. Acompanhou a turnê de Clara Sandroni, que havia sido descoberta por Milton Nascimento, e em 1989 grava diversas faixas do álbum “Clara Sandroni”, dentre as quais “Um índio” (Caetano Veloso), com participação do próprio “Bituca”. Ingressa na turnê do álbum, que passa por várias cidades brasileiras, e é convidado para abrir shows de Milton para plateias de mais de 10 mil pessoas.

Conheceu um amigo flautista Sérgio Ghivelder num concerto no Anhembi, em São Paulo, que se aproximou do trabalho instrumental em paralelo que Lissovsky desenvolvia, no Rio, com Alfredo “Doca” Machado, outro grande professor e exímio violonista da Escola de Música Villa-Lobos. O flautista, que tocava pífano hindu, conhecia o contrabaixista Paulo Russo nos mantras do musicoterapeuta Tomaz Lima, ou “Homem de Bem”, e o convidou para lhe apresentar o ilustre mestre das quatro cordas graves em sua própria casa. Paulo sentou ao piano, Henrique apoiou o violão na perna, que por sua vez se apoiava no assento de uma cadeira. A boca do violão se direcionava perfeitamente ao ouvido do grande mestre. Uma base simples nas teclas, e um improviso de mil notas em trinta segundos. O acompanhador parou com o piano e puxou o contrabaixo. Ficaram horas improvisando sobre acordes de blues, e logo decidiram que seria possível desenvolver algo juntos. Criaram o álbum “Southern Cross”, lançado em 1990 somente na Alemanha.

Em 1995, num congresso da National Flute Association, em Orlando, Flórida, Lissovsky acompanhou o quarteto “Flautistas do Rio”, alunos do professor Celso Woltzenlogel. Ao retornar, conheceu o saxofonista Mauro Senise e logo surgiram ideias de projetos conjuntos, como o II Festival de Inverno de Santa Teresa, em 1998. Produziram uma demo que foi enviada para França, Alemanha e Portugal, de onde vem o convite para apresentações em cidades lusitanas no encontro Rota Jazz, de jazzistas brasileiros e portugueses. A partir de então, o músico viveria uma década de uma lista longa de marcantes realizações. Em 2001, participa como produtor e arranjador do álbum “Cantigas”, da cantora e compositora baiana Diana Pequeno; em 2002, toca, produz e arranja o álbum “Nilo Batista – Choros e canções”; em 2005, produz um arranjo inédito para Coisa Nº 10, do saxofonista Moacir Santos, a convite da maestrina Tina Pereira, da Orquestra de Sopros da Pro Arte; em 2006, canta em concertos de corais regidos pelo maestro Isaac Karabtchevsky no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Projeto Aquarius.

O ano de 2007 foi o do lançamento do primeiro álbum, “Tem Sambajazz na Belazul”, com participações de Robertinho Silva, João Rebouças, Joana Queiroz, Rafael Barata, além de, claro, Mauro Senise, Paulo Russo, e o baterista Ivan Conti, conhecido por todos como o Mamão.

– Esses caras, quando eu tinha 14 anos, já os via tocando, a minha mãe me levava para ver os bons, a referência. A coisa vai girando, você vai vendo as conexões, entendendo porquê aconteceu aquilo. Quando vejo, tô tocando com caras dez anos mais velho que eu, e eu que tinha chamado. O crescimento se dá dessa maneira. O Paulo Russo é um gênio, o Senise foi aluno do Paulo Moura, Mamão é super musical, toca violão também. Tocar com esses caras é gratificante.

A evolução musical nos palcos se deve em grande parte pela carreira de professor que Henrique Lissovsky também desenvolveu. Ele é daqueles que preferem plantar uma semente no terreno fértil da criação do aluno, desconstruindo parâmetros de ensino já consolidados.

– Acredito em dom, é universal de todo mundo. Meus alunos têm o dom, você tem, eu tenho, todos têm. Só que isso vai se revelar de alguma maneira. O que é subjetivo é que este dom é imensurável. No caso da música, quem tem o dom? Ele está estudando, praticando, teve vontade de aprender, é isso que acontece. É o dom? Agora, a musicalidade, o que vai sair dali, isso também é subjetivo. Se a gente pudesse inventar um talentômetro… É o mundo da arte, de exageros, de imprevisibilidades, esse mundo não dá pra julgar. Por isso que esse negócio de prova não tem sentido. Vou julgar nos parâmetos do ensino intelecutalista? – questiona.

Ele relembra certa vez, ao realizar uma oficina de violão na comunidade da Mangueira, quando um adolescente da vizinhança, acostumado a ouvir uma trilha sonora de pancadões, o viu tocando “Samba de uma nota só”. O garoto ficou perplexo ao notar que os dedos do professor trocavam de posição, mas o som continuava parado. Foi então alertado para prestar mais atenção no que ouvia. Lissovsky tocou mais lentamente, e ao trocar de acorde, a mudança na harmonia foi percebida. O que não muda é a melodia. Seis meses depois, este garoto se matriculava nas aulas de violão da Escola de Música Villa-Lobos:

– O que ele aprendeu comigo? Ele não tinha acordado ainda! São sementes. Nosso trabalho é despertar estas sementes pra virar uma árvore. Mas o que é o cruel da musica? A sua percepção só avança com a técnica. Você só vai ter discernimento musical se se aprofundar em música. Não tem como. Esse trabalho de crítico não tem valor nenhum. Se a pessoa não sabe a diferença do dó de um ré, não tem o menor valor. Não tem como compreender música através do verbo. O problema da falta de discernimento é mercadológico – explica.

Lissovsky trabalha no sentido do inrotulável, por isso é considerado um músico jazzístico e professor que permite o aluno seguir um estilo próprio de musicalidade, construir sua própria linguagem, libertar o aluno das “algemas da partitura” e lançá-lo no universo de possibilidades, assim como fez em sua carreira:

– Meu segundo instrumento é bateria. O instrumento principal de Heitor Villa-Lobos era o violoncelo. O segundo era o piano, o terceiro, o violão. E a obra de violão dele é estudada em todas as universidades do mundo. Isso é dos músicos. Não teve ninguém que dissesse a ele que não poderia tocar outros instrumentos.

Ainda emocionado com a recepção recente que teve em Cuba, para apresentar o segundo álbum lançado em 2012 com repertório de violão solo incluindo peças de Bach, Villa-Lobos, Baden Powell, Hélio Delmiro, entre outros, Lissovsky revela que ainda faltava mostrar à mãe a entrevista que deu a Havana Radio, e que tinha certeza que viria seus olhos marejarem com a conquista do filho e com o portuñol pronunciado com uma voz que lembra a do pai Alexandre Lissovsky. Em Cuba, fora ciceroneado por um artista plástico especializado em ritmologia, e que tentava explicar-lhe sobre a inexistência do acaso. Desta forma, não foi em vão o suposto descaminho que o levou a quase se tornar um biólogo.

– Biologia era uma crise existencial – confessa. De uma certa forma, sua própria busca pelas origens e destinos da vida foi sua verdadeira professora, que lhe encaminhou a portas que já estavam abertas desde novo – Enquanto a música não me abandonar, a gente faz música, e ajuda no que for possível. Não sinto que estou trabalhando, mas sim que estou vivendo.

Página Oficial: henriquelissovsky.mus.br

Entrevista concedida a Pedro Soares