ZdenekSvabUm senhor de cabelos grisalhos anda pelo corredor distribuindo sorrisos aos que passam. Parece estar sempre envolto de uma atmosfera de harmonias confortáveis, o que não deixa de ser verdade. Talvez os alunos não saibam, mas sua vida foi de dedicação total a orquestras e atuações em diversos países de diferentes culturas. O maestro Zdenek Svab (pronuncia-se seu sobrenome “Chuab”) trouxe à Escola de Música Villa-Lobos sua vasta experiência de trompista, e conta na entrevista abaixo parte desta história, desde quando começou na música, influenciado pelo pai diletante e o avô compositor de marchas militares, passando por seu início nas orquestras oficiais das antigas repúblicas socialistas da Tchecoslováquia e da Iugoslávia, seu convite para trabalhar no Brasil, e a realização como profissional, especializado em trompa e na educação de jovens músicos.

Como ocorreu sua iniciação musical?

Na realidade, foi culpado o meu pai. Meu pai era músico popular, tocava saxofone, e achou que o filho deveria tocar alguma coisa. Então ele iniciou comigo com aulas de violino, só que ele era muito brabo comigo, eu desafinava e não ficava do jeito que ele queria. Mas ele ficou com pena de mim, e repassou o ensino de violino ao meu avô. Meu avô era uma figura fantástica, era um compositor de marchas militares, porque ele era da banda militar do Império Austro-Húngaro, lá de Viena, e na aposentadoria ele ficou como atendente judicial. Era uma figura muito musical, gostava de tocar muito harmonium, uma espécie de piano, entre órgão e piano, um instrumento que ele dominava bem, e ele me acompanhava. Então eu comecei a gostar de música, fiz coisas boas no violino com ele. Mas meu pai tinha cinco filhos, e gastava dinheiro com todos, e minhas duas irmãs mais velhas estavam estudando, uma economia, numa cidade fora, e outra fazendo alta costura. E ele já tinha gastos, e ficou com uma pulga atrás da orelha comigo, eu imaginava que poderia ser engenheiro florestal. E ele sentou comigo e disse que a realidade era aquela, não tinha mais dinheiro. Apesar de que na época do comunismo era tudo de graça, mas sempre tinha algum gasto, com viagens e alimentação, e o salário do meu pai, que trabalhava nos correios, não era tão grande assim. E aí ele conversou comigo, perguntou se eu não queria entrar na escola militar de música, a educação era formidável, pra entrar você tem que tocar um instrumento de sopro. No começo ele me colocou para tocar eufonium, um instrumento que tem embocadura de trombone, mas é curvado, tem uma sonoridade parecida com o trombone. Então comecei a estudar pra essa prova militar. Quando eu fiz, eu não fui bem. No final eles disseram que foi péssimo, indicaram que eu mudasse o instrumento, não sabia se seria pela boca, pelos dentes, só sabia que não seria violino, e eles me apresentaram a trompa. Eu nem sabia o que era trompa, comecei a estudar, e assim que começou a minha vida de músico.

Fale um pouco da sua vida de músico do Leste Europeu nesta época. Você enfrentou o período dos socialismos no Leste Europeu, das antigas Tchecoslováquia e Iugoslávia,…

[Eu passei] três anos na escola de música militar tcheca de um regime violentíssimo, ficou tão gravado na minha memória. Mas logo depois de alguns anos fui para uma cidade balneária, onde foi muito bom pra mim que existia uma orquestra sinfônica que fazia apresentações diárias. Era uma espécie de passeio, a orquestra ficava tocando em praias com águas minerais que curavam doenças, e eu fiquei lá. Foi muito bom para mim, eu pude praticar numa orquestra sinfônica, tive uma evolução nessa parte. Com o tempo, os militares me transferiram para Praga, era a banda central do exército, onde eu já tinha mais visibilidade. Entrei no conservatório de Praga, viajei muito com a banda sinfônica, Rússia, Egito, Líbano,…  Mas aconteceu que eu não gostava da vida militar, eu queria cair fora. Só que abandonar o exército é uma demonstração antipatriota, contra o partido comunista, contra o ensino de graça, aquelas coisas, e foi difícil para caramba. Mas eu aproveitei uma ocasião solene, quando a banda central tinha que tocar num palácio de Praga, que era o Ministério do Exterior, quando tinha uma reunião do Pacto de Varsóvia, aqueles generais da Polônia, da Bulgária, da União Soviética, aqueles cabeçudos todos. E a banda tinha que tocar lá. Um dia almoçamos num restaurante perto do quartel, e um colega meu, que tocava segunda trompa, bebeu algumas cervejinhas, comeu alguma coisa, e na hora daquela festividade toda, ele passou mal, deu vontade de vomitar. Então, ele pegou a trompa, virou a campana e vomitou na campana. Só que ele depois colocou a trompa na posição normal e virou aquilo tudo na calça do camarada que era presidente do partido comunista daquela banda. Foi uma confusão!

E como foi se livrar dessa?

Como chefe de naipe, eu consegui um atestado de depressão para o meu colega, eu passei a defendê-lo. Disseram que ele tinha que ser transferido para o interior, que deveria ser preso. Então, quando eu saí, no momento não tinha em Praga um lugar para eu ganhar a minha vida, mas na Iugoslávia tinha uma vaga de trompa, num teatro de ópera na cidade de Split, um lugar maravilhoso no Mar Adriático, lindíssimo. E eu fiz concurso lá, e eles me contrataram para um ano. Então eu fiquei tocando lá, tinha um monte de óperas.

Como e quando ocorreu sua vinda para o Brasil? Houve um convite do maestro Isaac Karabtchevsky, não foi isso?

Quando eu voltei para Praga, consegui fazer concurso para a Orquestra Sinfônica de Praga e fiquei lá, quando encontrei o maestro Karabtchevsky, que também veio abrir concurso para a Orquestra Sinfônica Brasileira. Engraçado foi que, na realidade, já anterior a isso, eu tinha um quinteto de sopros que ensaiava na Academia de Música, e, de repente, aparece o porteiro dizendo que há um senhor aqui que veio de Salvador, do Brasil, e quer conversar conosco. Era um trompetista da Orquestra da Bahia, disse que eles queriam contratar músicos que seriam da orquestra e também professores da Universidade Federal da Bahia. Então eles anotaram o nome de quem se interessou. E houve outra coisa muito engraçada, na Orquestra Sinfônica de Praga, todo concerto que tinha alguma coisa de trompa solo sempre aparecia um senhor falando inglês comigo, me dando parabéns, e eu não sabia quem era. Depois de algum tempo, quando a gente já se conhecia de vista, ele se apresentou, disse: “eu sou da Embaixada Brasileira, gostaria de falar com o senhor porque eu recebi uma carta de um conhecido, o Alceo Bocchinno, da Rádio MEC, e ele está pedindo um trompista. O senhor se interessaria?” Como o regime não estava muito legal, eu pensava que quando voltasse da Iugoslávia poderia ficar melhor, mas não, então fomos fazer uma gravação na casa dele, nós mais um pianista amigo meu, e a gente gravou um monte de coisas que ele mandou pro Rio de Janeiro, pra Rádio MEC. Nisso foi o Karabtchevsky para Praga, fez concurso lá, e aí como este camarada da Embaixada já me conhecia, me ligaram, eu estava estudando em casa, disseram que tinha um maestro brasileiro na cidade e me perguntaram se eu não queria ir conhecê-lo. Logo depois surge o contrato da Sinfônica Brasileira. Fomos eu e mais 12 tchecos, duas trompas, dois violoncelos, cinco contrabaixos, um oboísta e a trompetista. Quando eu cheguei aqui, Alceo Bocchino já me conhecia, e me convidou pra tocar também na Orquestra Sinfônica Nacional. Depois veio a Orquestra de Câmara, de repente a da Bahia, eles me convidaram para também dar aula por lá quando souberam que eu estava no Rio: “Você tem que dar aula aqui!”. Eu fiquei dois meses tocando lá…

O senhor sempre dava aulas desde sua formação como músico de orquestra?

Comecei a dar aula oficialmente na Iugoslávia, na escola popular de música, e eu dava aula de trompa oficialmente. Para isso tinha que fazer uma estrutura, tudo, antes não tinha professor de trompa, tinha que preparar tudo oficialmente para o cargo. Foi lá que comecei. Quando voltei para a Sinfônica da minha terra [Praga], eu já dava aula nas escolas populares de música. E depois, quando vim ao Brasil, imediatamente com minha chegada foi criada uma escola de música para os futuros profissionais. Então todos os primeiros convocados tinham obrigação de dar aulas para jovens que se interessaram. Esta foi a primeira conexão de dar aulas por aqui. Depois me chamaram para a Escola Villa-Lobos. Dei aulas aqui por dois anos. Mas como tinha que dar aulas na UNIRIO, não poderia fazer as duas coisas, então fiquei só lá. Mais tarde, quando me aposentei, voltei para cá. Na realidade, desde quando vim para o Brasil, sempre dei aula.

E também concluiu seu mestrado pelo Brasil…

Sim. Terminei em 1996, meu trabalho de dissertação se chama “História da Trompa no Brasil”. Porque tem muita coisa que ainda falta ser pesquisada. Nesta dissertação, deixei vários campos abertos para se aprofundarem neste trabalho. Na ocasião quando foi reaberto o Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, no Maranhão, um teatro maravilhoso, antigo, conheci um cara que era diretor de teatro, e ele conseguiu não sei quantos milhões de dólares, era um negociante fantástico, trouxe cantores como Plácido Domingo, Josep Carreras, um monte de gente ele trouxe para o teatro, fez várias coisas muito boas, transformou aquele teatro num lugar moderníssimo. Quando foi inaugurado, levou a Montserrat Caballé, a soprano, e fez várias óperas, Madame Butterfly, o Turíbio Santos foi também convidado, era uma festividade enorme. Eu fiquei lá dois meses. Era a época que eu estava trabalhando lá, e tive uma oportunidade de ir com um professore da universidade de lá visitar uma tribo indígena chamada Canelas, no interior do Maranhão. Fui com ele, ficamos quatro dias, dormi lá,… Vou te contar, eles ofereciam mulheres, foi uma coisa difícil para gente se adaptar. Mas o que aconteceu foi que eles tinham criado instrumentos de restos das frutas, bambu e não sei quê, instrumentos que pareciam trompa. A gente tentou fazer alguma coligação com isso no meu trabalho, tirei retrato, fiz uma pesquisa superficial, mas quem quiser pesquisar é um campo bem profundo. E outra coisa que pouco se sabe no Brasil é que havia muito movimento em Pernambuco e na Bahia, nos séculos XVII e XVIII, quando muitos trompistas brasileiros deveriam ser fantásticos, pelos escritos, pelo que a gente achou, e também depois em Ouro Preto, em Minas Gerais, deveria acontecer muita coisa boa de música.

Qual a importância da trompa numa orquestra?

Você tem uma ligação muito profunda do naipe de trompas com todos os naipes dentro de uma orquestra sinfônica. Nem todos os instrumentos tem a mesma possibilidade, por exemplo, trompete e violino, é algo mais agressivo. A trompa tem uma sonoridade, tem possibilidades sonoras e emocionais, tem tudo para se adaptar com qualquer instrumento. É um instrumento que tem uma particularidade dentro da orquestra sinfônica, sempre está incluída na instrumentação de todos os compositores, acompanhando violinos, sopros, madeira, como acompanhamento, como solista, como quarteto,…

Como o senhor vê o mercado de música para o instrumentista aqui no Brasil?

Quando eu cheguei ao Brasil, era muito maior o interesse público pela música erudita. O que acontecia, e eu não sei se os militares fizeram isso para criar uma imagem diferente, mas verdade é que a Sala Cecília Meireles vivia lotada, tinha concertos e mais concertos, a gente tinha conjuntos, criamos tanto conjuntos, a gente vivia da música clássica de uma intensidade profunda. Porém instrumentistas [brasileiros] naquela época não tinha muitos, era restrita a qualidade dos instrumentistas, tinha que trazer de fora. Com o tempo, começou a mudar, começou a aparecer muito mais estudantes do Brasil, devido a muitos caras que vieram de fora e davam aula, isso realmente aumentou muito o número de alunos. Mas ao mesmo tempo, a forma da educação criou um total desinteresse pela música erudita porque ela é mais filosoficamente persistente, e começou a formar mais interesse pela música popular e comercial, mas rápida de entender. Então os jovens, muito mais fácil, começaram a procurar esse tipo de música e se interessaram pouco, porque era um pouco pesado para as facilidades que a tecnologia trouxe. Camarada hoje abre um iPad, vai saber tudo na hora, mas quando tem que pegar um violino para estudar, vai ser daqui a cinco anos que vai começar a tocar bem. Isso complica muito. Eu me lembro que, quando cheguei ao Brasil, era obrigatório o ensino de música nas escolas, tocávamos com a Orquestra Sinfônica Brasileira em várias escolas, depois aquilo sumiu, não tinha mais, as escolas não estavam mais obrigadas a dar essas apresentações. Então esse fato tirou total interesse público, não há um festival [de música erudita] como o Rock in Rio, de duas semanas, de mais de não sei quantos milhões. Nas culturas mais sérias isso não acontece. Não estou contra a música popular, o rock, não digo isso, tanto faz qual o campo da música, a verdade é que você não tem hoje possibilidade de dar oportunidade para a maioria dos alunos das escolas conhecerem música erudita. Fizemos um movimento em Teresópolis, junto com o Sesc, de Concertos para Juventude. Era um grupo de seis instrumentistas, tinha tudo, Vivaldi, Bach, Brahms, Villa-Lobos, chorinho, tinha tudo. E fomos fazer umas apresentações dos instrumentos em escolas em locais que você nem pode imaginar que existem, no longe pra caramba. E havia criancinhas de seis a 15 anos. Olha, eu nunca vi um silêncio absoluto, o interesse delas, a menina chorando de emoção. A gente inventou uma brincadeira, antes de começar as apresentações, tocávamos um trechinho das obras que viriam a seguir, de vários autores, Mozart, Vivaldi, e falamos para as crianças prestarem atenção, pois no final iríamos repetir, e elas deveriam nos dizer qual era música. Não erraram uma, acertaram tudo. Quer dizer, se você coloca na frente da garotada, explica, fala um pouco de compositor, do sofrimento do Beethoven, e outras coisas da história, você não tem como tirar o interesse desse pessoal. Eles não esquecem facilmente aqueles momentos. Mas isso é só uma vez. Isso é o que eu acho errado.

Seu carinho pelo Brasil surgiu só quando o senhor veio, ou antes de vir para cá?

Na realidade, o Brasil que eu conhecia foi só uma coisa que ficou bem cravada na cabeça, foi um filme sobre o Brasil em que o ator francês, como se chamava?, ele fazia uma fuga para o Brasil, aí passava o Cristo, as imagens do Rio de Janeiro, ficou muito na minha cabeça. Era um ator muito conhecido na época da Brigitte Bardot [o ator era Jean-Paul Belmondo, e o filme L’Homme de Rio, de 1964].

E a partir de quando surgiu o carinho especial pela Região Serrana do Rio de Janeiro?

Quando eu me aposentei, descobri em Teresópolis um lugar bem especial, com 24 casas, pequenas, não são casas grandes, mas muito bem estruturadas, no meio do mato, no meio da floresta. Você abre a janela e tem floresta, um riacho correndo, cheio de macaquinhos, micos-prego, passarinhos, esquilos, cobras, tudo isso. Eu adoro, porque é um silêncio, um lugar fantástico, e tem uma grande vantagem, porque é um condomínio em que tudo é de todo mundo, tem uma equipe que trata da jardinagem, essas coisas. E o que mais me impressiona é que, quando eu preciso viajar, ficar um ano fora, eles cuidam da minha casa, fazem faxina, isso é muito bom. Do outro lado, existem perigos também, como quando foi a catástrofe em 2011. Lá em cima não acontece nada, mas embaixo o acesso ficou totalmente destruído, não podíamos nem sair nem chegar durante uns dez dias. Tirando isso, é um lugar fantástico. Quando me aposentei, tentei fazer alguma coisa lá, na Secretaria de Cultura, e eles tinham interesse. Havia um prefeito de origem tcheca também, Jorge Mario Sedlacek, e ele também tinha interesse, porque Teresópolis era um centro de cultura muito interessante, havia festivais internacionais grandes para caramba nos anos 1970. Então, agora, o pessoal começou a me chamar, e tinha alguns jovens que estudavam instrumento, me chamavam, criamos uma camerata, deu certo, nos apresentávamos em tudo quanto é lado, todo mundo gostava. Criei um festival de musica clássica, fizemos em 2009, 2010 e 2011. 2011 foi depois da catástrofe, mas conseguimos fazer. Mas depois veio uma acusação do prefeito, de roubo, até hoje parece que não conseguiram nada contra ele, mas acabou a vida dele lá. E não foi possível fazer mais nada, porque agora tem um prefeito jovem totalmente ignorante na música, tiraram, depois ele voltou…

Porque o senhor, mesmo aposentado e morando num local tranquilo como Teresópolis, continua dando aula?

Eu não gosto de parar. Uma vez parando, você também fica, de repente, com fortes possibilidades de decepções, coisas que na vida não são muito boas para velho. Então tem sempre que ter alguma cosia. Apesar de achar que faço algo demais, deveria diminuir um pouco, ter um pouco mais de descanso. Mas eu gosto.

Entrevista a Pedro Soares