27097_105177646169160_6103716_nAlfredo “Doca” Machado, violonista, arranjador e professor do Curso Básico da Escola de Música Villa-Lobos, tem um jeito muito peculiar na forma de tocar seu violão e de dar aulas tanto para alunos iniciantes quanto para os já experientes nas seis cordas. Com as inseparáveis e afiadas unhas postiças, ele executa com perfeição as infinitas possibilidades que a guitarra proporciona a partir da experiência musical reconhecida por acompanhar cantoras como Clara Sandroni e Mart´Nália, ter participado da ascensão do pagode na década de 1990, e ser um impecável músico de jazz.

Doca é daqueles músicos versáteis que não se limitam a gêneros. É um violonista jazzístico com formação clássica e popular, não em universidades, mas em aulas particulares de grandes nomes da música que conheceu ao longo da carreira, como Luiz Cláudio Ramos, Bia Paes Leme, Dino 7 Cordas, dentre outros. Filho do jornalista carioca Aluízio Machado, “comunista, boêmio, um tipo comum da época que gostava de levar o violão para a praia”, na Urca, e que reunia intelectuais em sua casa, Alfredo cresceu rodeado pela nata da vanguarda artístico-musical. Além do pai, o irmão mais velho, Ivan Machado, contrabaixista prodígio que viria a ser um dos maiores nomes do instrumento no samba, também o estimulou no interesse pela música. Começou com aulas de piano com um professor de sobrenome Siqueira, e que adotava métodos de “escolas fortes”, de uma pedagogia na base da força, da imposição e da disciplina. O rígido professor tascou-lhe um soco na mão após um erro numa peça que o fez abandonar as teclas para abraçar o violão e não largar jamais. O pai então o colocou em aulas de violão clássico de um amigo estrangeiro, o professor suíço Marcel Gilbert Pierrent, que residiu por um tempo na Zona Sul carioca enquanto abria sua escola na cidade suíça de Lausanne. Levou os estudos eruditos do professor suíço a sério, afinal, não poderia deixar passar as lições deste que também seria professor de nomes como Ricardo Silveira e Paulo Muylaert. O excelente pupilo acabou por auxiliar o próprio mestre, passando a dar aulas particulares para muitos de seus alunos.

O violão popular, contudo, não era ensinado nas aulas, e Alfredo aprendia sambas e harmonias de jazz em casa e na rua. Os palcos começaram a se interessar por suas harmonias, e o primeiro convite surgiu, aos 18 anos, vindo de Luciano Alves, maestro, pianista e autor de obras de teoria musical. A missão era substituir o guitarrista Perinho Santana (que seria escalado para acompanhar a revelação do momento, Luís Melodia) numa peça experimental no Teatro Thereza Raquel, em Copacabana:

– Era uma peça psicodélica, não me lembro mais, “Ruminando Cogumelos”, uma coisa assim. Era bem psicodélica. E tinha até carteira assinada – relembra com um humor característico.

Quando o pai jornalista foi enviado como correspondente do Jornal do Brasil a Buenos Aires, Alfredo foi junto e aproveitou a oportunidade para aprender também a guitarra latina com a concertista portenha Irma Constanzo. A grande estrela do violão solo, grávida na época, ensinava para o aluno brasileiro técnicas mais elaboradas dos dedilhados latinos. “Eu lembro que ela, grávida, tocava um violão lindamente”, recorda.

Voltou para o Brasil mais bem desenvolto nas seis cordas. Continuou dando aulas de violão clássico e construiu uma agenda freelancer de músico acompanhador. Não parou de estudar: teve aulas com Hélio Delmiro, um dos maiores expoentes do violão brasileiro, “uma figura que quando toca você começa a repensar todas as ideias do violão”; Luiz Cláudio Ramos, violonista e arranjador de Chico Buarque e que até hoje Alfredo “tenta digerir sua única aula”; Bia Paes Leme, compositora, instrumentista, arranjadora e professora da Escola Portátil de Música; Vânia Dantas Leite, premiada compositora e especialista em música eletroacústica; e Dino 7 Cordas, que dava aulas na antiga loja da Rua da Carioca, Bandolim de Ouro, e que teve apenas um, porém inesquecível, encontro em que aprendeu mais fora do que dentro da aula:

– Você pagava na hora, e ele escrevia as frases das sete cordas. Tive uma ou duas aulas com ele, aprendi muito só de estar perto. Você entende como que ele é pragmático, tinha certeza de tudo, todo metódico. Você vê que o sujeito é erudito, no sentido do que é a erudição. Saí da aula conversando com ele, e ele dizia os acordes na rua – relembra emocionado. Todos estes nomes ele conhecia dos palcos da vida. Fez alguns shows com a primeira cantora a lhe convidar para apresentações e que era conhecida apenas como Silvia, “uma cantora sensacional que não tinha sobrenome artístico,”. Não esperava que este convite representaria o início de uma carreira como acompanhador de grandes cantoras.

Certa vez, porém, frustrado com a condição de violonista acompanhador, posição a qual ele ficava mais à vontade do que como solista, mas que o mercado costuma ser muito competitivo e pouco recompensador financeiramente, resolveu desistir da música para ingressar no serviço público. Como funcionário estadual, até se acostumou com a rotina de carteira assinada, nomeação e dinheiro certo no fim do mês. Truque do destino, esta foi uma época em que apareceu uma enxurrada de convites para se apresentar. O chefe do setor onde era funcionário estadual, um evangélico apaixonado por óperas e que, por sorte, simpatizava com Alfredo, compreendia e incentivava o empregado a conciliar o trabalho burocrático com os palcos. Então, o amigo Gibran Helayel encontraria uma solução caída do céu para lhe proporcionar uma renda fixa na área musical: precisava-se de professor de violão na Escola de Música Villa-Lobos. O currículo vinha da experiência das apresentações, já que Alfredo não tem formação acadêmica: “Não sou licenciado, e você para ser reconhecido quando não é licenciado tem que fazer um trabalho muito bom. O Leopoldo [Tosa, coordenador da época] viu meu trabalho, viu que eu tinha uma vida de musico”, diz.

Dentro da Escola, conheceu o violonista e professor Henrique Lissovsky. Os dois formaram uma parceria e o trabalho chegou à Clara Sandroni, cantora paulista que os convidaria para sua turnê em diversos estados brasileiros e consolidaria o reconhecimento de Alfredo Machado como um impecável instrumentista.

– A Clara era ligada a essa turma de São Paulo, Arrigo Barnabé, experimentalismo, fui muito a São Paulo com ela nesses eventos. O Henrique foi também, fizemos uma turnê muito legal – conta, mencionando que os shows contavam com participações especialíssimas como Milton Nascimento e Paulo Moura.

Na virada para a década de 1990, Alfredo já transitava como instrumentista de estúdio e acumulava uma grande experiência profissional nas gravações e bandas de estilos diversos: “Estas ações reais mostram uma serie de questões, não é só a música, mas toda a questão do palco, do monitor, de gravação, dos ensaios da banda, da produção fonográfica e que eu me envolvi muito”. Por tudo isso, fora convidado para integrar o Grupo Raça e viveu do pagode durante alguns anos, usufruindo o sucesso do estilo com uma pomposa recompensa financeira nas excursões pelo país, sobretudo em São Paulo. Ele e o xará Alfredo Galhões, tecladista que hoje toca com Zeca Pagodinho, eram os dois únicos brancos do conjunto, e Doca percebia bem o preconceito sofrido pelo estilo enquanto gênero popular:

– Eu atribuo parte disso [preconceito] ao racismo mesmo, porque os jovens negros cantores estavam excitando as senhoras e moças brancas. Eu via, quando tocava no Grupo Raça, que tinha um monte de garotas loiras gritando. E o jovem do pagode já não queria mais ter aquele lugar de pobre miserável, queria ganhar dinheiro e conquistar garotas brancas. Isso era importante naquela época, era uma forma de ter o mesmo tratamento que os conjuntos pop tinham – diz. Ele ainda explica que samba e pagode são praticamente o mesmo tipo de música – O pagode não é nada além do que o samba do rapaz mais jovem que quer fazer um pouco diferente do tradicional, mas são os mesmos percursionistas, violonistas e arranjadores. E você faz uma arte linda.

Ao longo da década, o pagode foi sendo preterido pelos holofotes da mídia, voltando aos guetos populares. Surgia, porém, uma forma de tocar mais sustentada no passado que interessava as gravadoras. Pelos contatos próximos a Martinho da Vila, cuja banda o irmão Ivan integrava, e por conhecer a filha Mart´Nália, que começava a se revelar como cantora, foi convidado para participar da produção do álbum “Minha Cara” (1995):

– Um disco sensacional, que eu gosto muito de mostrar meu trabalho ali. É o segundo disco dela, o primeiro mais importante.

Produziu e arranjou muitas canções da sambista, gravou DVDs ao vivo, e excursionou pelo mundo em turnês pela Europa e África, junto a grandes nomes do samba, como o mito da cuíca, Ovídio Brito. Com Mart´Nália, merecem também destaque a participação e produção dos álbuns “Aula de Samba”, com sambas enredo antigos, e “Carnavalança” (2008), com marchas de carnaval arranjadas para crianças. As produções contaram com nomes como Dona Ivone Lara, Lecy Brandão, Simone, Chico Buarque, Lenine, Maria Rita, Luís Melodia e, claro, Martinho da Vila.

Recentemente, a convite do jovem pianista e compositor carioca Antônio Guerra, Doca contribuiu no álbum “Movimentos”, que fora inscrito como competidor do Festival MIMO em 2015. “Eu gostei muito do resultado. O disco tem o Ricardo Silveira, meu irmão Ivan, Joana Queiroz, o Teozinho, filho do Téo Lima. E eu falei para ele [Antônio] que este disco iria ganhar um prêmio”. Não deu outra: o pianista foi escolhido como um dos vencedores do Prêmio Instrumental do festival.

Conhecedor dos idiomas do violão, tanto erudito quanto popular, “curioso do violão clássico e da rotina jazz”, o professor Alfredo Machado não acredita numa maneira padronizada no ensino do instrumento, na velha escola, como a que o primeiro professor o impusera, apesar de reconhecer e admirar a importância do eruditismo nas seis cordas: “Sou amigo e admirador dos violonistas clássicos brasileiros, como Maria Haro, Bartholomeu Wiese, Graça Alan, que são professores de violão nos cursos de graduação nas faculdades de música do Rio de Janeiro,alem disso respeito e admiro muito,muitíssimo mestres como Turíbio Santos, entre outros que deram uma contribuição fundamental, e eu acho que o violão brasileiro está de alguma maneira caminhando para uma maior diversidade”, aposta”. Ele indica nomes atuais do violão que demonstram como no Brasil surgiram métodos mais arrojados, músicos como Zé Paulo Becker, Maurício Carrilho, Lula Galvão, e revelações, como Caio Márcio, filho da professora da EMVL, pianista Fernanda Canaud.

Alfredo ainda faz questão de frisar sobre uma diferença importante a respeito do violão e da guitarra. Para ele, são conceitualmente os mesmos instrumentos, mas a guitarra foi um violão que teve a necessidade de ser amplificado para entrar nas orquestras, e isto só aconteceu com o surgimento das tecnologias de amplificação sonora. “Esse violão antigo, europeu, não tocava com ninguém porque não tinha microfone, não era de orquestra, não era ensemble. A guitarra elétrica é o violão de orquestra, é o guitar ensemble da Berklee [universidade dos Estados Unidos] , que não chamam de guitarra elétrica. Eles entendem que aquilo é o instrumento guitarra [guitar, violão, em português], obviamente elétrico porque vai tocar numa orquestra, na big band, e vai precisar de um aplificadorzinho de 40, 50 watz para acompanhar o trombone, o trompete”, explica.

A experiência como músico de palcos nacionais e internacionais o permitiu uma ampla visão das necessidades musicais pelo mundo, e Alfredo demonstra como que, na história da música, a Europa, berço da tradição ocidental na música, foi recolonizada pelas Américas e hoje busca uma música mais miscigenada. “A Europa está ligada no batuque, no groove, na levada. Claro, eles mantém as tradições [musicais] e têm políticas fortes para isso. Agora, paralelamente, eles têm uma necessidade contemporânea, uma estética criada nas Américas, nas colônias, que recolonizaram a Europa musicalmente, e isso é visto na música brasileira, americana e cubana”, finaliza.

Entrevista a Pedro Soares