No intervalo das aulas das segundas-feiras, é comum ouvir o piano da sala 302 sendo tocado com perfeição e leveza pelos professores da Escola de Música Villa-Lobos. Passatempo e prática que ressoa pelos corredores do terceiro andar executada por grandes talentos do corpo docente, como a professora Valéria Betoche, que contribui nesta bela composição sonora junta com nomes como João Carlos Assis Brasil e Fernanda Canaud. Valéria é uma exímia concertista que leciona iniciação musical para jovens e adultos, professora carinhosa e dedicada, cujas turmas são presenças garantidas nas audições do fim de semestre.

Até se tornar concertista e mestre em valsas brasileiras, Valéria Bertoche ficou dividida entre duas paixões, a arquitetura e a música. A quarta filha de cinco crianças da família Bertoche, de origem italiana – “aquela coisa da mãe com a mesa enorme cheia de gente e agregados” –, admirava a paixão do pai pela música e se aproveitava do piano da sala para tocar suas primeiras notas. Enquanto as outras crianças brincavam lá fora, Valéria tinha lições com a tia pianista.

prata-da-casa-2
Valéria Bertoche pratica piano no intervalo de aulas: passatempo e exercício.

“[Sou de] Volta Redonda. Meu pai era funcionário da CSN [Companhia Siderúrgica Nacional], minha mãe era uma pessoa humilde também. E nós saímos dali porque meu pai tinha uma ambição de ter uma empresa dele só”.

A família Bertoche, então, se mudou por diversas vezes, seguindo o pai Paulo Bertoche, um excelente “racionalizador”. “Na época não existia a profissão de administrador de empresas”. Moraram por quatro anos em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo, e voltaram ao Rio após 15 anos sem muitos contatos de Valéria com o piano.

Ela bem que tentava encontrar professores de piano em cada cidade que ficavam, mas as antigas obrigações de estudar (contanto que seja algo que não fosse música) a distanciavam cada vez mais do aprendizado pianístico. “Eu nem tinha noção, minha família era muito simples. A gente não tinha essa ideia do que é ser um pianista. Meu pai, apesar de gostar de música, não sabia que tinha o bom professor de piano e o mau professor de piano. Para ele era professor de piano”. Neste tempo, o coração de Valéria deixou a Música de lado, e ela se apaixonou pela Arquitetura. Por influência do avô engenheiro, ela estava determinada a se tornar arquiteta e diletante. Mas por teimosia, ou ironia do destino, a música sempre a perseguia. Ou seria o contrário?

Ainda jovem, quando morava no bairro das Laranjeiras, Valéria conheceu uma vizinha professora de piano que acabara de ter um bebê. Sempre batia então em sua porta para ter aulas particulares durante o período de sua licença maternidade. “Minha mãe ficava me procurando e eu estava lá”. Impressionava-se com a musicalidade da professora e jamais esqueceu a iniciação musical que recebeu, quando foi apresentada às sinfonias de Beethoven e aos noturnos de Chopin, composições que até hoje pratica.

Entrou na faculdade de arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tornou-se estagiária de uma das referências em escritórios de arquitetura da cidade, e ainda assim não largava o piano. Montou uma firma de arquitetura com o irmão mais velho no Edifício Central e, quando dava o fim do expediente, saía apressada de volta ao bairro das Laranjeiras para praticar piano até às dez horas da noite. Pode-se dizer, sem redundâncias, que a arquitetura de sua paixão pela arquitetura começava a ruir:

“Eu lembro que fui fazer um estágio no escritório do Sérgio Bernardes, que era um grande arquiteto, todo mundo queria trabalhar com ele, e uma vez ele veio até mim, sentou ao meu lado e disse:

— O que você quer ser?
— Eu quero ser pianista.
— Então o que você está fazendo neste escritório?
— É que eu comecei a estudar [música] muito velha…”

No quarto período da faculdade de Arquitetura, com 23 anos, Valéria fez vestibular para a Música, foi aprovada e passou a cursar as duas faculdades paralelamente. Nos finais de ano, tinha que se desdobrar entre recitais – “naquela época era muito mais difícil que agora” – e apresentações de projetos e maquetes arquitetônicas. “Minha vida sempre foi uma vida dura.”

A música começou a envolvê-la por completo aos 30 anos. Valéria trabalhava como arquiteta em Angra e já era musicista formada, quando surgiu a oportunidade de dar aulas numa escola infantil. Ela via os amigos arquitetos do Rio buscarem alternativas de emprego, pois o mercado para construções estava em baixa. Quando largou de vez a Arquitetura, sua agenda conciliava arduamente alunos de Angra e do Rio, até que a capital a abrigou definitivamente e a deixou com saudades da cidade praiana sul fluminense. “Aquela cidade pequena, de noite a gente saía, tomava um chopinho, era gostoso.”

Em pouco tempo, Valéria ingressou no mestrado em Música, e a alma de arquiteta voltou a aflorar. “Eu fiz uma tese de mestrado misturando Arquitetura e a Música, é a Valsa Brasileira e a Arquitetura do Rio Antigo.”

A figura do pianista e professor Luiz Henrique Senise, reconhecido mundialmente como um grande mestre do ensino pianístico, surgiu quando Valéria foi indicada a procurá-lo. Ela sabia o que era um bom professor de piano, que daria continuidade ao ensino da tia e da vizinha pianista. Mas nunca tinha visto o professor Senise, e ficou surpresa com sua jovialidade – “ele vinha recém chegado de Viena, era um rapaz jovem, de cabelão, eu pensei ‘caramba este é o professor Senise?” –, e didática – “me lembro que saí da casa dele de Copacabana, saía voando de tão feliz por encontrar um bom professor. Em três, quatro anos eu já era uma outra pessoa tocando.”

Valéria ganhou concursos de piano, fez cursos na Itália de interpretação pianística sobre a obra de J.S. Bach e de Chopin. Foi professora substituta na UFRJ, deu aulas de arte em universidades de Maceió e João Pessoa, e lecionou no Conservatório Brasileiro de Música, quando se aperfeiçoou na pedagogia da leitura a primeira vista, aprofundando-se nos métodos de ensino pianistico. Ela sabe bem como são diversas as cabeças de seus alunos e as diferentes formas de ensino e aprendizado:

“Tem pessoas que conseguem aprender várias coisas ao mesmo tempo, ler com o olhar, e outras em que não existe olhar dominante. Tem que ser um treino diário, tem que ter concentração.”

Da mesma forma que seu envolvimento com a música teve dificuldades, a professora Valéria tem todo cuidado com as naturais barreiras que surgem num aprendizado musical:

“É muito bom pegar uma criança que nunca teve aula de piano. É ótimo. Não diria melhor do que se já tivesse conhecimento, mas você vai ensinar direito. Ela só não vai aprender direito se ela não tiver condições nenhuma de aprender, mas não é tão difícil. Se você se preocupa com essa parte de ensinar o que deve ensinar, por exemplo, tem muitos professores que são neuróticos com a forma, posição com a mão, tem outros que negligenciam essa parte, tem outros que são mais preocupados com a sonoridade, com a beleza sonora, e outros que nem fazem questão de nada disso. Então tem que ter um meio termo de tudo, tem que saber a hora certa de um mecanismo mais aperfeiçoado, senão o aluno pode se aborrecer e não querer mais vir.”

Assim como conquistou a professora Valéria, a Música também deve aflorar nos alunos: “O aluno é uma arte muito linda. Se você conquistar o aluno pela parte musical, ele vai acabar tendo interesse de fazer algo melhor, vai começar a tocar bonito, a ter um som bonito, a utilizar os pedais, a conhecer quem são os grandes pianistas, a se envolver num universo musical.”

Valéria, contudo, reserva os fins-de-semana para ficar um pouco distante do piano. Seria a arquitetura novamente atiçando o coração da professora?

— Aqui na escola eu trabalho tanto que sábado e domingo servem quase para me recuperar…

— Se recupera com piano?

— Não, engraçado, não tenho tido muita condição de estudar piano quando chego em casa. Acho que a gente fica mais velha também. Quero ler os grandes clássicos, quero ir num cinema, num teatro, ver um balé. Então eu estudo, mas não com aquele fervor de quando eu era mais jovem.

Ter largado a Arquitetura não causa frustração em Valéria Bertoche, mas a alma de arquiteta é fundamental para a construção de harmonias e melodias perfeitas que saem das teclas do piano da sala 302… Mas será que ela não pensou em ser arquiteta de salas de concerto?

— Já pensei, mas aí é uma outra vida. Teria que nascer de novo, já faço tanta coisa!

Texto e entrevista: Pedro Soares